Questão iraquiana pode romper ''''relação privilegiada''''

O novo primeiro-ministro britânico, Gordon Brown, reuniu-se domingo com George W. Bush na residência do presidente americano em Camp David. Foi a primeira visita do sucessor de Tony Blair a Washington. Brown assumiu uma posição tranqüilizadora. Sim, existe uma relação privilegiada entre Grã-Bretanha e Estados Unidos. Sim, o contingente britânico permanecerá no Iraque enquanto não estiverem reunidas as condições de segurança nesse país, foi o que ele declarou. Portanto, o presidente americano pode dormir descansado. Entretanto, Washington sabe muito bem que o povo britânico detesta a guerra iniciada por Bush no Iraque, com suas mortes repugnantes dos dois lados, de americanos e britânicos, e também iraquianos. Então, seria lógico que Brown iniciasse seu reinado afrouxando um pouco os laços entre Londres e Washington, em particular nos casos do Iraque e do Afeganistão. Ora, não foi isso, pelo menos na aparência, o que aconteceu. Brown reafirmou a importância de uma "relação privilegiada" entre os dois países. Entende-se, assim, o alívio manifestado em Washington. Na verdade, as primeiras medidas adotadas pelo novo primeiro-ministro britânico causaram um pouco de inquietação em Bush. Brown mostrou-se reticente quanto ao legado de Blair, particularmente na questão do Iraque. Pior ainda: sempre que procurou marcar sua distância em relação à política de Blair para o Oriente Médio, Brown recebeu ovações estrondosas da opinião pública britânica, que nunca aceitou a sangrenta aventura no Iraque. Além disso, os Estados Unidos sabem que Mark Malloch-Brown, ministro responsável pela política externa britânica para África, Ásia e ONU, gostaria que "Washington e Londres não fossem mais como irmãos siameses". Acrescentem-se a isso as pressões exercidas pela hierarquia militar britânica, totalmente favorável a uma saída do Iraque. De acordo com o Estado-Maior do Exército, a Grã-Bretanha não tem tropas de reserva para tocar, simultaneamente, duas guerras - uma no Iraque e outra no Afeganistão. Outros sinais também preocuparam Washington. Segundo o jornal londrino Sunday Times, o conselheiro diplomático de Brown, Simon McDonald, que foi responsável pelo Iraque dentro da chancelaria britânica, teria sondado a Casa Branca a propósito de uma eventual saída dos 5.500 soldados britânicos estacionados no Iraque. Brown foi obrigado a reparar a situação, com um esclarecimento seco: não há plano de retirada do Iraque. Deve-se temer que a relação entre Grã-Bretanha e Estados Unidos possa acabar sucumbindo a esses maus ventos? É verdade que essa relação passa por tensões, mas continua vivaz e sólida. Brown, que é um bom economista, jamais escondeu a sua admiração pela livre empresa. E, embora pertença ao Partido Trabalhista, ele continua totalmente favorável à desregulamentação do mercado de trabalho. Apenas a aventura comum no Iraque pode romper essa relação. No momento, Brown parece não ter intenção de modificar a situação. Mas a pressão da opinião pública britânica é muito forte. A dúvida é por quanto tempo Brown vai conseguir ignorá-la. *Gilles Lapouge é correspondente em Paris

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