Josh Haner/The New York Times
Josh Haner/The New York Times

Questão israelense divide democratas

Hillary Clinton e Bernie Sanders terão de debater na campanha suas divergências em relação às negociações de paz entre Israel e palestinos

Anne Gearan / THE WASHINGTON POST, O Estado de S. Paulo

22 Maio 2016 | 05h00

O senador Bernie Sanders, o único candidato judeu da campanha presidencial americana de 2016 e a ex-secretária de Estado Hillary Clinton, que, assim como ele, se define como 10% pró-Israel, estão chegando perto de um possível conflito a respeito do que significa ser democrata e favorável ao país.

Sanders promete pressionar para que seja revista a posição do Partido Democrata sobre as relações com Israel, pedindo um foco maior nos direitos dos palestinos como prioridade do governo americano. Segundo as pessoas envolvidas nas discussões sobre possíveis mudanças da plataforma do partido, Sanders pretende defender essa revisão no que se refere ao tratamento dado ao tema das relações dos EUA com Israel, e ao empenho de buscar a paz entre o aliado dos EUA e os palestinos.

A nova linguagem proposta não foi submetida à Comissão Nacional Democrata, mas deverá abordar o que Sanders definiu como uma abordagem mais equitativa dos EUA no caso da ocupação de Israel dos territórios reclamados pelos palestinos para um futuro Estado.

A atual plataforma não trata diretamente da ocupação que dura quase 50 anos, mas apoia “um acordo justo e duradouro israelense-palestino, com a criação de dois Estados para dois povos”.

Falando, no mês passado, durante um debate acirrado com Hillary Clinton, Sanders disse que o ataque militar de Israel à Faixa de Gaza, em 2014, foi “desproporcional” à ameaça representada pelos foguetes lançados pelo Hamas sobre Israel.

Embora se declare “100% pró-Israel”, Sanders afirmou que, para que a região encontre a paz, “temos de tratar o povo palestino com respeito e dignidade”.

Por trás de suas palavras, há um persistente debate entre os estrategistas americanos e internacionais a respeito dos interesses palestinos em relação a Israel, e sobre a eventualidade de o firme apoio dos EUA a Israel reduzir a influência americana na promoção da paz e de um tratamento justo dos palestinos.

Muitas nações europeias e alguns americanos liberais estão convencidos de que os Estados Unidos se mostram demasiado complacentes com as ações israelenses, até mesmo com a construção dos assentamentos prejudiciais aos palestinos. É também opinião comum na ONU, e em outros ambientes, que os EUA defenderão praticamente todas as ações de Israel, militares ou de outro tipo, e Washington não se preocupa com o que os palestinos e os seus defensores consideram violações sistemáticas dos direitos humanos.

O governo Obama, durante e depois da atuação de Hillary como secretária de Estado, declara que critica Israel sempre que isso se justifica, e age como honesto intermediário com vistas à promoção da paz. A guerra de Gaza, que durou quatro semanas, no verão de 2014, intensificou profundamente as tensões nas relações americano-israeleses, apesar de os diplomatas americanos defenderem Israel contra os que criticavam suas táticas, como os ataques aéreos numa área densamente povoada.

A Casa Branca usou uma linguagem dura para condenar o ataque israelense a uma escola da ONU dias depois de Israel aceitar um cessar-fogo. Não obstante, o governo Obama defendeu Israel contra as críticas internacionais quando a ação israelense foi considerada uma “punição coletiva” imprópria, e proclamou que as relações entre EUA e Israel eram firmes e permaneciam inalteradas.

Embate. A discussão mais séria a respeito de Israel nas primárias democratas ocorreu durante o debate entre Hillary Clinton e Bernie Sanders em Brooklyn, em abril.

Hillary evitou responder diretamente à pergunta se o violento ataque militar de Israel contra Gaza em 2014, no qual morreram mais de 2,1 mil palestinos, foi proporcional à ameaça. 

Não se sabe ao certo quantos destes eram militantes, mas segundo cálculos da ONU, mais de 70% das vítimas eram civis. Israel contesta esses dados e diz que o Hamas também deve ser culpado pelas mortes, uma vez que, segundo o Exército israelense, civis armazenarem suprimentos e esconderem militantes em casas e edifícios.

“Eu não sei como se possa governar um país sob constantes ameaças de ataques terroristas, de foguetes sobre a cabeça”, disse Hillary na transmissão do debate na CNN. “Você tem o direito de se defender. Isso não significa que não deva tomar precauções adequadas, e eu entendo que é sempre possível evitar o açodamento.”

A atual posição da política americana prevê um Estado palestino na maior parte do território da Cisjordânia atualmente governado pela Autoridade Palestina secular, sob ocupação israelense. A Faixa de Gaza separada, governada pelo grupo militante islamista Hamas, deveria fazer parte desse território. 

O governo israelense e muitos partidários de Israel nos EUA afirmam que as recomendações para que se adote uma política mais equitativa ou mesmo neutra em relação ao conflito israelense-palestino indicam uma visão que não leva em conta as necessidades de segurança de Israel.

A posição dos EUA em relação a Jerusalém e aos direitos dos refugiados palestinos é que essas questões deveriam ser definidas mediante negociações entre israelenses e palestinos nas conversações sobre a “solução final”. Atualmente, o processo de paz está estagnado.

Para o deputado israelense Anat Berko, do Partido Likud do primeiro-ministro Binyamin Netanyahu, disse que o objetivo de Sanders pode parecer sincero, mas na realidade é perigoso. Na avaliação do deputado, há uma incapacidade de compreender a posição única de Israel. “Esse discurso permite que os que odeiam Israel se escondam atrás da causa palestina. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA 

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