Questão nuclear depende de disputa interna

Análise

LOURIVAL , SANTANNA, O Estado de S.Paulo

22 de março de 2013 | 02h14

Depois de anos de retórica e tergiversação, as negociações entre o Irã e os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança mais a Alemanha (P5+1) estão pela primeira vez tocando em questões concretas. O P5+1 ofereceu ao Irã o alívio das sanções, em troca da suspensão do programa de enriquecimento de urânio a 20%.

O presidente Barack Obama deu um salvo-conduto para Israel atacar o Irã e reafirmou que os EUA farão o que for necessário para impedir Teerã de obter armas nucleares. Por outro lado, Obama disse que o Irã deveria aproveitar a oportunidade de um diálogo, embora não seja merecedor de confiança.

A reação do líder espiritual iraniano, Ali Khamenei, também combinou uma mensagem de ameaça e outra de abertura, seguida de ressalva. Ele afirmou que o Irã arrasaria Tel-Aviv e o Porto de Haifa se suas instalações nucleares fossem atacadas por Israel. Mas assegurou que o Irã está disposto a negociar, embora, para os americanos, negociar signifique concordar com eles.

A questão óbvia é a de saber em qual das mensagens inter-excludentes repousa o desejo genuíno de Obama e de Khamenei. É preciso levar em conta os contextos de cada declaração. Obama realizava a primeira visita a Israel desde que assumiu a presidência, em 2009, e encontrava-se com um líder israelense fortalecido pela recente reeleição, que não escondeu no ano passado sua predileção pelo candidato republicano, Mitt Romney, de quem é amigo há décadas.

Khamenei, por sua vez, discursava na importante cidade de Meshhad na celebração do Nauruz, o ano-novo persa. A penúria causada no último ano pela nova rodada de sanções econômicas - que pela primeira vez trouxeram inflação e desabastecimento ao Irã - está sendo sentida nessa festa, em que tradicionalmente os iranianos colocam iguarias sobre a mesa, vestem roupas novas e trocam presentes.

O Irã terá eleições presidenciais em junho. A oposição foi neutralizada, com seus principais líderes sob prisão domiciliar, e a disputa se dá dentro do campo conservador, entre Khamenei e o presidente Mahmoud Ahmadinejad, que está no segundo mandato e não pode se candidatar, mas deseja manter-se no poder por trás de seu ex-chefe de gabinete Esfandiar Rahim Mashaie. Khamenei ainda não definiu seu candidato.

A questão nuclear é a única que ainda tem o poder - embora menor do que alguns anos atrás - de unir os iranianos. Daí o tom belicista, típico de Ahmadinejad mas antes incomum em Khamenei.

As sanções estão exercendo a pressão desejada pelas potências ocidentais sobre o Irã. Se isso levará o país à radicalização ou ao diálogo, dependerá da capacidade dos EUA e da Rússia, principal aliada do Irã, de calibrar essa pressão com uma possibilidade real de saída negociada. Mas dependerá também do tumultuado e complexo jogo político interno do Irã.

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