Questão palestina chega à China

Governo chinês se insere aos poucos na complicada diplomacia do Oriente Médio

Edward Wong & Chris Buckley - The New York Times, O Estado de S.Paulo

10 de maio de 2013 | 02h06

A China deu um pequeno passo na diplomacia do Oriente Médio ao receber nesta semana Mahmoud Abbas, líder da Autoridade Palestina, e o primeiro-ministro de Israel, Binyamin Netanyahu. O fato de as duas visitas terem sido programadas de maneira que os líderes não se encontrassem - Abbas deixou Pequim na terça-feira e Mahmoud Abbas chegou na quarta-feira, depois de passar por Xangai - indica que nem os líderes, tampouco Xi Jinping, presidente da China, estavam dispostos a impulsionar negociações formais.

Xi apresentou uma proposta de quatro pontos a Abbas que, apesar de não conter nenhuma ideia pioneira, sugere que a China considera assumir um papel mais enérgico, mesmo que limitado, de mediadora num dos mais prolongados conflitos do mundo. "À medida que a economia, a força nacional e a posição internacional da China crescem, as nações árabes se voltam mais para o país", afirmou Guo Xiangang, vice-presidente do Instituto de Estudos Internacionais de Pequim.

A China tem adotado uma posição clara e consistente, embora não ofensiva, com relação à questão palestino-israelense. Os chineses mantêm relações comerciais cada vez mais produtivas com Israel - de acordo com dados oficiais chineses, o intercâmbio comercial chega a US$ 10 bilhões por ano -, mas apoiam a criação de um Estado palestino. Por outro lado, dependem das importações de petróleo bruto do Irã e dos países árabes para satisfazer suas necessidades energéticas. Cerca da metade das importações de petróleo da China vem do Oriente Médio e essa dependência deve aumentar.

A premissa central da proposta de quatro pontos apresentada por Xi Jinping é a criação de um Estado palestino ao lado de Israel dentro das fronteiras estabelecidas em 1967 e tendo Jerusalém Oriental como sua capital. O plano reflete a posição tradicional da China em relação ao conflito. Na terça-feira, a porta-voz do ministério chinês das Relações Exteriores, Hua Chunying, disse que Israel precisa suspender a construção de assentamentos em Jerusalém Oriental e na Cisjordânia, parar com os atos de violência contra civis inocentes e pôr fim ao bloqueio contra a Faixa de Gaza.

A posição comedida da China com relação ao conflito ficou evidente em alguns comentários feitos por Xi durante sua reunião com Mahmoud Abbas. "O direito de existência de Israel e suas razoáveis preocupações com a segurança devem ser totalmente respeitadas", Xi afirmou.

A posição da China também é complicada por seu vigoroso apoio ao Irã e aos países árabes. O Irã, com seu programa nuclear, é uma das maiores preocupações de Israel e EUA. A China aliou-se à Rússia para tentar impedir propostas ocidentais para que se adotasse ações mais enérgicas contra a Síria, que é uma aliada do Irã.

Apesar da grande atenção dada às visitas de Abbas e Netanyahu, a China deve permanecer um participante silencioso no Oriente Médio. Pequim não vê muito a ganhar se envolvendo em disputas aparentemente frequentes e distantes, disse Yi Gang, professor da Academia Chinesa de Ciências Sociais em Pequim. "A China está muito longe do Oriente Médio e não consegue nem mesmo uma boa solução para os próprios problemas regionais: Coreia do Norte, as Ilhas Senkaku/Diaoyu, as Filipinas, o Vietnã", afirmou. "Mesmo que ela se torne uma superpotência com uma economia equivalente à dos EUA, ainda assim não terá um papel importante no Oriente Médio."

A flexibilidade ideológica da China no Oriente Médio e Norte da África ficou evidente durante a revolução líbia. A China rejeitou apoiar a ajuda militar ocidental para os rebeldes que combatiam o ditador Muamar Kadafi e intensificou suas relações com os revolucionários quando ficou claro que o governo seria derrubado.

As conversações de Netanyahu com os líderes chineses foram dominadas por assuntos de interesse bilateral, incluindo as relações econômicas. As posições de ambos quanto ao programa nuclear no Irã e a guerra civil na Síria são muito claras e definidas para haver mudanças como resultado dessas conversações, afirmaram Yin e Guo.

"Israel teme que os iranianos adquiram a tecnologia que precisam para fabricar armas nucleares e tem pedido à comunidade internacional que aumente as sanções econômicas e estabeleça outros tipos de pressão contra aquele país", disse Guo. "A posição da China é clara: ela se opõe a ataques militares contra o Irã e insiste que as sanções precisam ser moderadas", acrescentou.

A viagem de Netanyahu à China é a primeira de um líder israelense ao país desde 2007. Em Xangai, ele visitou o memorial aos refugiados judeus que fugiram do Holocausto na Europa para Xangai. Em reunião com o prefeito de Xangai, Yang Xiong, Netanyahu declarou que "a cooperação entre Israel e China nos campos da ciência, tecnologia e manufatura pode resultar numa parceria perfeita". "A diferença entre cooperar com a China e outros países é que o resultado pode ser dez vezes melhor." / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

* SÃO JORNALISTAS

Tudo o que sabemos sobre:
Visão global

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.