Etienne Laurent/EFE
Etienne Laurent/EFE

Questão síria causa impasse político entre Rússia e França

Após Kremlin vetar na ONU texto sobre cessar-fogo, presidente francês não decidiu se receberá Vladimir Puitin

Andrei Netto Correspondente / Paris, O Estado de S. Paulo

11 de outubro de 2016 | 05h00

A guerra na Síria está criando novo impasse diplomático entra França e Rússia. O presidente francês, François Hollande, não decidiu se receberá no Palácio do Eliseu o presidente da Rússia, Vladimir Putin, que chega a Paris no dia 19 para a inauguração de um centro cultural russo. O impasse se dá em razão do veto russo no Conselho de Segurança das ONU a uma resolução francesa que pretendia reorganizar as bases para o diálogo de paz na Síria entre Washington e Moscou, por ora congelado. 

O mal-estar diplomático aumentou no fim de semana. O chanceler russo, Serguei Lavrov, chegou a confirmar que Putin não só iria a Paris como se encontraria com Hollande em meio às programações de inauguração do centro cultural russo. No entanto, no fim de semana, Moscou vetou a resolução apresentada pela França no Conselho de Segurança, um texto que estabeleceria as bases de um novo cessar-fogo na Síria.

A situação irritou Hollande, que não escondeu sua insatisfação e questionou a pertinência de receber Putin em Paris. “Será útil? Será necessário?”, indagou o presidente francês em entrevista à rede de TV TMC, na qual criticou os bombardeios sírios, com apoio militar russo, à cidade de Alepo, foco da rebelião contra o regime de Bashar Assad. “Se eu o receber, direi que é inaceitável, que é grave até para a imagem da Rússia.”

Não bastasse o clima de desentendimento em torno da Síria, o governo russo anunciou o reforço de sua presença militar no enclave de Kaliningrado, entre Polônia e Lituânia – dois países da União Europeia. Nessa base, serão instalados mísseis balísticos Iskander, com capacidade de transportar ogivas nucleares. Ontem, o Kremlin também confirmou a intenção de construir uma base naval permanente no porto de Tartus, noroeste da Síria, reforçando sua presença militar no país e no Oriente Médio. 

Em meio à tensão crescente, o chanceler da França, Jean-Marc Ayrault, afirmou ontem que Paris pretende pedir ao Tribunal Penal Internacional (TPI) que abra uma investigação sobre crimes de guerra cometidos em Alepo – um claro recado à Rússia, que apoia militarmente o regime de Assad. Questionado sobre quem é o responsável pelo supostos crimes, o ministro evitou acusações diretas. “Isso diz respeitoi a todo mundo. Há fatos constitutivos de crimes de guerra. Mas é preciso apontar as responsabilidades.” Ayrault disse ainda que se Putin for recebido no Palácio do Eliseu será para que Hollande “diga verdades” sobre os conflitos na Síria e na Ucrânia.

Nos últimos dias, cresceu nos meios políticos da Europa o apoio à adoção de novas sanções contra a Rússia e, no fim de semana, o ministro alemão das Relações Exteriores, Frank-Walter Steinmeier, advertiu que é elevado o nível de tensão entre Rússia, União Europeia e EUA. “É ilusão crer que se trata de uma guerra fria. Os tempos atuais são diferentes e mais perigosos.”

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