'Questão ucraniana deve ser tratada com diálogo'

Chanceler armênio afirma que cooperação entre país e Brasil tem de aumentar e pressão econômica sobre Putin não funciona

RENATA TRANCHES, ENVIADA ESPECIAL / ERIVAN , O Estado de S.Paulo

29 de junho de 2015 | 02h06

O ministro das Relações Exteriores da Armênia, Edward Nalbandian, reconheceu a importância do reconhecimento do genocídio armênio pelo Brasil, mas pediu um estreitamento maior em questões comerciais e diplomáticas. Em entrevista ao Estado, Nalbandian afirmou que as relações entre seu país e os brasileiros têm um grande potencial para ser explorado, mas pouco foi feito até agora.

O chanceler atacou as sanções impostas à Rússia após a anexação da Crimeia. Segundo ele, as penalidades não são produtivas para qualquer dos lados. "Todas essas questões devem ser tratadas por meio do diálogo", afirmou Nalbandian, considerado um dos nomes mais importantes do gabinete do presidente Serzh Sarkisian. A seguir, os principais trechos da entrevista.

Como o aniversário de cem anos do genocídio armênio tem contribuído para os esforços de reconhecimento internacional?

A principal mensagem da celebração do centenário do genocídio armênio é "nunca de novo". O reconhecimento do genocídio é importante não apenas para a Armênia, mas para a comunidade internacional, no sentido de prevenir que novos crimes contra a humanidade, novos genocídios ocorram. E é por isso que o reconhecimento e a condenação do genocídio armênio, assim como outros genocídios, é da máxima importância.

Talvez houvesse sido possível prevenir outros crimes como esse se o genocídio armênio tivesse sido devidamente reconhecido e condenado cem anos atrás.

Quão importantes são essas manifestações de apoio?

É muito importante que novos países estejam reconhecendo o genocídio armênio. Gostaria de enfatizar os importantes passos tomados pela Alemanha e pela Áustria: o primeiro, pela presidência e o segundo, pelo Parlamento. Refiro-me aos comunicados do presidente alemão e do Parlamento austríaco, não apenas reconhecendo o genocídio armênio, mas também mencionando sua parcela de responsabilidade pelo que aconteceu cem anos atrás. Enquanto a Alemanha e a Áustria falam sobre sua parte de responsabilidade, a Turquia, sucessora do império otomano, continua em negação.

A Turquia está passando por uma mudança política depois que o partido AKP perdeu a maioria no Parlamento. Isso pode ter algum impacto para a Armênia?

Pela iniciativa do nosso presidente, demos início a um processo muito importante de normalização de nossas relações com a Turquia. Tivemos algumas rodadas de negociações e chegamos ao acordo sobre dois documentos, dois protocolos. Mas o lado da Turquia rejeitou ratificá-los e implementá-los. E a posição da comunidade internacional era e é muito clara que a bola está agora com o tribunal turco. No futuro, tenho certeza de que, cedo ou tarde, teremos de virar essa página juntos.

Nesse contexto, também houve resolução aprovada pelo Senado brasileiro. Qual sua opinião?

Foi muito importante. Esse foi o primeiro passo e nós esperamos que haverá outros para o reconhecimento do genocídio pelo Estado brasileiro.

Com relação à Rússia, como o regime de sanções europeias e americanas contra Moscou está impactando a Armênia?

Quando nós falamos sobre consequências, nós temos de dizer que as consequências não são apenas para a Rússia e aqueles países que têm forte relação econômica com ela, mas também para aquelas nações que decidiram impor as sanções contra Moscou.

Elas também são afetadas. Com relação à diáspora, temos uma grande comunidade armênia na Rússia, de cerca de 2 milhões de pessoas. Mas também temos cerca de 500 mil armênios vivendo na Ucrânia. Nós consideramos que todas essas questões devem ser tratadas por meio do diálogo, da negociação e não usando a força, a coerção econômica.

A Armênia tem uma forte relação comercial com o Irã. Como o sr. avalia o acordo nuclear que possivelmente será fechado entre o Irã e as seis potências?

A Armênia está entre os primeiros, se não o primeiro país, a dar as boas vindas ao acordo prévio sobre a questão nuclear iraniana, negociado com os seis países. Nós esperamos que ele (o acordo definitivo) possa ser fechado até o fim deste mês, como esperado, e trará uma ampla solução para essa questão que é do interesse não apenas do Irã e seus países vizinhos, mas para toda a região e além dela. Esperamos que uma solução possa ser alcançada e os países da região consigam ter mais possibilidades para relações econômicas e comerciais.

Como a relação com o Brasil, por exemplo, poderia melhorar? Quais são os pontos?

Temos um grande potencial para ser explorado, mas não acho que muito tenha sido feito até agora. Temos uma embaixada desde 2011 no seu belo país e vocês têm embaixada aqui na Armênia desde 2006. Também estabelecemos um Consulado Geral em São Paulo desde 1998.

Várias autoridades da Armênia visitaram o Brasil, incluindo o presidente, o presidente do Parlamento, diferentes ministros. Eu visitei seu País na ocasião da posse da presidente Dilma Rousseff, em janeiro de 2011. E, claro, tive a oportunidade também de me encontrar com meu colega, o ex-ministro das Relações Exteriores (Antonio Patriota). Ele prometeu visitar a Armênia, mas isso nunca aconteceu.

O sr. espera por uma visita do atual ministro?

Esperamos muito expandir nossa cooperação bilateral. Esperamos consolidar o quadro jurídico de nossas relações. O volume de nossas relações econômicas e comerciais é pequeno. Com tantos países, tantas vezes menores que o Brasil, temos muito mais trocas comerciais e econômicas.

Esperamos muito que do lado brasileiro também sejam tomados alguns passos concretos para aumentar, aprofundar nossa cooperação e nossa parceria em todos os campos possíveis. Do nosso lado, estamos muito interessados.

Como ministro das Relações Exteriores, posso confirmar mais uma vez que estamos procurando realmente ter uma parceria forte com o Brasil. Temos cooperação econômica e comercial muito maior com a Argentina que com o Brasil. Geograficamente, estamos longe da América Latina, mas geograficamente a Argentina não é mais perto do que o Brasil.

Especialmente pelo tamanho da comunidade armênia que vive no Brasil?

Sim. Há dezenas de milhares de armênios vivendo no Brasil, a maioria em São Paulo. Dois terços do nosso povo vivem em uma centena de países. A Armênia é um pequeno país, mas temos muitos armênios mundo afora.

 

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