Quinta-feira pode transformar-se no "Dia D" da Venezuela

A Venezuela entrou nesta terça-feira em uma espécie de contagem regressiva para a detonação de uma bomba-relógio que pode explodir na quinta-feira, quando cerca de 1 milhão de simpatizantes do presidente Hugo Chávez estarão marchando em direção a Caracas de todas as partes do país em apoio ao governo constitucionalmente eleito em dezembro de 1998. "A situação é de pânico", alertou o professor Samuel Moncada, diretor da Escola de História da Universidade Central de Venezuela (UCV).Em entrevista à Agência Estado, pouco antes de partir para Porto Alegre, onde participará do Fórum Social Mundial, oprofessor disse que os grupos de oposição mais radicais quequerem derrubar Chávez começaram a incitar a população,principalmente as classes média e média alta, a se armar paradefender-se "das colunas de guerrilheiros que invadirão"Caracas na quinta-feira. "Isso é muito, mas muito grave, atéporque a estratégia desse grupo de radicais antichavistas é umasó: a substituição do presidente pela força, custe o quecustar", afirmou Moncada.Questionado se o grupo de Amigos para Venezuela, liderado pelo Brasil e os Estados Unidos, pode ajudar a atenuar essa situação tensa que vive o país, o professor da UCV se mostrou pessimista. "Como conseguir isso se os mais radicais, como Carlos Ortega (da Confederação de Trabalhadores de Venezuela), Juan Fernández (da Fedecâmaras) e Carlos Fernández (da PDVSA)desconfiam de todos, inclusive da Mesa de Negociações que vemsendo conduzida por César Gaviria (secretário geral da OEA)?",indagou Moncada, também cientista político.Para ele, o grande problema para uma solução pacífica e constitucional são justamente os grupos radicais da oposição que praticamente excluíram as lideranças políticas do país, entre eles Eduardo Fernández, presidente do Copei, e Teodoro Petkoff, moderado oposicionista, das decisões que poderiam levar a umasolução do conflito. "Enquanto os radicais querem uma solução rápida e violenta, com a participação de alguns militares queainda acham que podem persuadir, os políticos esperam uma saída negociada, com a mediação do grupo liderado pelo Brasil." De acordo com o professor, essa clara divisão deixou a oposiçãomoderada sem nenhuma força política como para dizer que a greve não tem mais sentido e a qual seria necessário suspendê-la. "Se alguém viesse a declarar publicamente isso, certamente seráchamado de traidor", afirmou Moncada.Quer dizer que a oposição está totalmente dividida?, insistiu a Agência Estado durante a longa conversa que manteve com o professor por telefone. "A oposição sempre esteve dividida. Aúnica coisa que os une é a renúncia de Chávez", afirmou o professor. "Daí a minha percepção de que estamos próximos dedias muito dias críticos. Vivemos um processo doloroso, onde os venezuelanos estão e vão pagar muito caro."DemissõesO professor informou que a situação econômica está também cada vez mais crítica em decorrência da greve prolongada, que entrou hoje no 51º dia. "Grande parte das empresas privadas estão anunciando demissões de 40% de seu quadro de funcionários. Outras, concederam férias não remuneradas, redução de salários ou até licenças sem direito a receber nada", lamentou Moncada.Essa situação trabalhista, que agrava mais ainda o alto desemprego e aumenta o contingente de trabalhadores que vivem da economia informal, é outro aspecto que está dividindo aoposição.Enquanto os radicas não querem voltar atrás com a paralisação os moderados acreditam que a greve não está mais trazendo resultados políticos, até porque a própria sociedade, que numprimeiro momento os apoiou, estão se voltando contra eles.Moncada também se mostrou pessimista pelas posições inflexíveis do governo do presidente Chávez. Os grevistas daPDVSA, a segunda maior estatal do planeta da área de petróleo,começaram a exigir "anistia" para voltar ao trabalho depois dequase 50 dias de greve - a estatal parou as suas atividades doisdias depois de decretada a greve geral, no dia 2 de dezembro."Acredito que isso seja impossível. Chávez, que já haviaconcedido isso em abril do ano passado, quando tentaramderrubá-lo, disse que não vai fazer essa concessão", explicou oprofessor.

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