Cláudia Trevisan / ESTADAO
Cláudia Trevisan / ESTADAO

Quintal político de Obama sofre com crise industrial que ajudou Trump

Bairros de Chicago onde presidente iniciou sua atuação pública não veem melhoras após oito anos de mandato de seu ‘filho’ mais ilustre

Cláudia Trevisan, Enviada Especial / Chicago, O Estado de S.Paulo

15 Janeiro 2017 | 05h00

Depois que seus dois filhos passaram mais de um ano na prisão por vender drogas, Roy Logan os convenceu a sair de Englewood, um dos mais violentos e segregados bairros de Chicago, onde quase todos os habitantes são negros, o porcentual dos que vivem abaixo da linha da pobreza supera os 40% e o desemprego é quatro vezes superior à média nacional. 

“Aqui não há empregos nem oportunidades e eu conhecia muita gente que foi assassinada”, disse Logan, que tem 58 anos. Como muitos afro-americanos, ele não acredita que a situação racial dos EUA melhorou nos oito anos de governo de Barack Obama, o primeiro negro a comandar o país. 

O número de homicídios em Chicago aumentou em 50% no ano passado. Mais de 70% das vítimas e dos autores dos crimes eram negros. Os 762 assassinatos superaram a soma dos registrados em Nova York e Los Angeles e transformaram 2016 no mais violento ano na cidade desde 1997. 

Englewood fica no Sul de Chicago, a 7 km de Hyde Park, onde Obama construiu sua carreira política, casou-se e viveu até ser eleito senador estadual, em 2004. A mudança da família para Washington só ocorreu em 2008, quando ele foi eleito para a presidência, mas os Obamas mantiveram sua casa no local. Berço político do presidente que deixará o cargo na sexta-feira, Chicago é a metrópole com mais segregação dos EUA e Englewood é um dos principais exemplos do abismo racial: 99% de seus 30 mil habitantes são negros. 

A paisagem urbana é desoladora e reflete a decadência econômica e a falta de investimentos públicos. Há terrenos baldios onde antes havia casas e muitas das que sobraram estão abandonadas e em decomposição. O lixo se espalha por calçadas, as poucas lojas são protegidas por grades e as escolas públicas são de qualidade muito inferior à dos bairros mais prósperos, o que alimenta o ciclo da falta de oportunidades.

“Se quero ver algo bonito, tenho de ir para o norte, até o centro da cidade. Nós pagamos impostos como todo mundo, mas eles nunca voltam para cá. Não há dinheiro, não há renda, não há recursos. Só mais crimes”, afirmou Taji Jaines, de 33 anos.

Abandono. Professor do Departamento de Criminologia da Universidade de Illinois em Chicago, John Hagedorn vê uma clara correlação entre elevados índices de criminalidade e a questão racial. “Chicago manteve níveis de segregação muito mais altos que os de Nova York, Los Angeles ou Houston e, aqui, ela é acompanhada da falta de investimentos públicos.”

Hagedorn divide Chicago em duas cidades: a do “espetáculo”, que gira em torno do centro financeiro e das atrações turísticas, e a do “desespero”, marcada pela pobreza, segregação racial e criminalidade. “Todas as coisas que acompanham condições miseráveis estão lá”, observou Hagedorn, referindo-se a Englewood e os bairros vizinhos habitados majoritariamente por negros. 

Estudo de seu departamento concluiu que 60% dos jovens negros não têm emprego fixo. “Chicago mudou no governo Obama? Sim, para pior.” Segundo ele, não houve programas que enfrentassem a devastação de regiões que sofreram com a desindustrialização do século passado, entre as quais está o sul de Chicago.

Resistência. Formado em computação, Calvon Thomas não encontra emprego em sua área e ganha a vida dançando e dando aulas de hip-hop – quando não está trabalhando como motorista do Uber. “Há muito poucos empregos por aqui”, disse Thomas, que trabalhou no ano passado como instrutor de um programa que tenta tirar jovens negros das ruas com a dança e o canto. “A falta de oportunidade empurra os garotos para as gangues e a criminalidade.”

Englewood também é marcada pela tensa relação entre a polícia e a comunidade negra, que ganhou visibilidade no governo Obama com os casos de assassinatos de jovens afro-americanos por policiais. “Há um grande ressentimento em relação à polícia, que olha para nós como sub-humanos”, disse Jaines, que nasceu e cresceu no bairro. “É comum ser parado e sofrer humilhações como revistas em nossos genitais diante de nossos filhos, nos desumanizam.”

No ano passado, Jaines criou a Nova Era Chicago, uma organização que tenta resgatar o espírito de comunidade do bairro e reduzir a ação ostensiva da polícia. Todas as noites, ele participa de patrulhas desarmadas nas ruas de Englewood, na esperança de prevenir conflitos entre os moradores. 

Apesar de considerar que a vitória de Obama foi um evento importante para os negros, Jaines disse que ela não mudou seu cotidiano. “Nós estamos na mesma posição em que estávamos na sua posse. Oito anos não mudariam uma história de quatro séculos.” 

Graças à proliferação de celulares e às redes sociais, os episódios de abuso policial contra negros ganharam projeção nos últimos anos e levaram ao surgimento de um dos mais simbólicos movimentos do governo Obama, o Black Lives Matter. 

Durante a campanha eleitoral, o grupo foi hostilizado pelo presidente eleito Donald Trump, que citava o slogan Blue Lives Matter, uma referência à cor do uniforme policial. 

O caso de abuso mais emblemático de Chicago foi o assassinato de Laquan McDonald, que tinha 17 anos quando foi morto por 16 tiros em 2014. O Departamento de Justiça abriu uma investigação sobre a conduta da polícia, mesmo procedimento adotado em relação a outras cidades que registraram episódios semelhantes. 

Na sexta-feira, o órgão divulgou o relatório que relata violações de direitos civis pela polícia de Chicago – célebre pela prática de tortura até os anos 90 – e propõe uma série de reformas. “Eles estão agindo rapidamente para tentar proteger a iniciativa da retórica de Trump, que estimula a ação agressiva da polícia”, avaliou Hagedorn.

 

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