Quinze anos depois, os erros da invasão dão força aos taleban

O movimento radical atualmente controla um terço do Afeganistão e rejeita dialogar com o governo afegão, que o ignorou após o fim da guerra

Baber Khan, O Estado de S.Paulo

07 de outubro de 2016 | 05h00

Quinze anos depois da invasão americana no Afeganistão, os erros do passado alimentam a força dos taleban, cada dia mais poderosos e capazes de controlar grandes zonas no país, e de inflingir grandes baixas às forças afegãs. 

Quando os taleban foram afastados do poder após a invasão que começou em 7 de outubro de 2001, o Afeganistão não tinha governo nem Forças Armadas. Durante os últimos 15 anos, o país foi recuperando e construindo estruturas administrativas de governo e militares. Hoje, conta com 320 mil soldados e policiais que se encarregam, desde 2014, da segurança de todo o país, após o fim da missão militar da Otan. Mas, hoje, ainda com 12 mil militares da aliança em missões de assistência e 9.800 efetivos dos Estados Unidos em "missão antiterrorista", os taleban estão cada vez mais fortes.

O ex-general e analista militar Atiqullh Amarkhill considera que Estados Unidos e o governo afegão cometeram três grandes erros durante todos esses anos. O primeiro foi que a comunidade internacional entregou o poder a um círculo de "senhores da guerra" do norte afegão, inimigos de outras facções e dos próprios taleban; o segundo foi não aceitar os taleban no governo quando estavam dispostos a assinar acordo de paz. Em sua opinião, o terceiro erro foi não equipar e preparar as forças afegãs para combater plenamente os taleban.

O grupo insurgente saiu muito debilitado da invasão americana, mas, a partir de 2004 e após sofrer perseguição, encarceramento e ataques a seus povoados e localidades, o que causou indignação da população, muitos civis se somaram a eles, afirmou Amarkhill. "Eles não tiveram outra opção a não ser começar de novo uma luta armada nos povoados do sul do país", disse.

De acordo com um comitê dos Estados Unidos, os taleban controlam atualmente em torno de um terço do Afeganistão, um número que o ex-general considera muito conservador. "Nos 15 anos de sua missão, os Estados Unidos e seus aliados estiveram em guerra, mas a situação mudou para pior e hoje muitas províncias, como Kunduz, Helmand e Uruzgan, estão a ponto de cair; a guerra aumenta e a cada dia os taleban controlam mais território", resumiu.

Segundo a Otan, apenas em julho deste ano, 900 membros das Forças Armadas afegãs morreram em choques com os taleban, que rejeitaram as propostas feitas pelo governo de Cabul para ir para a mesa de negociação e, em vez disso, intensificaram suas estratégias militares. "Depois da derrota em 2001, os taleban estavam prontos para se reintegrar à sociedade como um movimento político ou social, mas os Estados Unidos e o governo afegão os ignoraram e começaram a detê-los, matá-los e persegui-los em suas casas", declarou Abdul Baqi Amin, chefe do Centro de Estudos Regionais e Estratégicos (CSRS).

Em sua opinião, os taleban foram "obrigados" a voltar a lutar e agora são uma grande força militar que ameaça ao menos 5 das 34 capitais de províncias afegãs e controla enormes proporções do território do país. "Acredito que não estão interessados em derrubar o governo, mas certamente querem levar a situação ao ponto de poder forçar os governos dos Estados Unidos e Afeganistão a reconhecê-los e aceitar suas demandas", disse o analista político Nazar Muhammad Mutmaeen, especialista em Taleban.

Mutmaeen considera que os taleban não aceitaram a proposta de diálogo que o governo afegão propôs em dezembro de 2015 porque preferem fazê-lo com "os grandes jogadores", Estados Unidos e ONU. Em sua opinião, se os Estados Unidos não puderam ganhar a guerra mais longa de sua história após 15 anos e mais de 150 mil soldados, o governo afegão também não poderá, e esta situação pode continuar por anos.

Mutmaeen comparou a situação atual com os últimos anos do regime comunista de Mohammad Najibullah, que finalmente foi derrotado pelas facções mujahedin nos anos 90.

O portavoz do Ministério da Defesa, o general Dawlat Waziri discorda da opinião de Mutmaeen. Ele declarou que os taleban podem tomar posições e zonas durante algum tempo, "mas nunca poderão mantê-las por muito tempo".

Assim sendo, a única solução para os analistas é um processo de paz que, na opinião de Amarkhill, pode ganhar força se os EUA pressionarem o Paquistão a deixar de apoiar os taleban e dar abrigo em seu território. /EFE

 

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