TV Estadão | 28.09.2015
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Quiseram nos dividir, diz candidato kirchnerista sobre relação com Brasil

Daniel Scioli afasta hipótese de ajuste para reverter inflação e crise nas trocas comerciais; candidato kirchnerista falou com meios brasileiros e espanhóis

Rodrigo Cavalheiro, CORRESPONDENTE / BUENOS AIRES, O Estado de S. Paulo

27 Setembro 2015 | 16h10

BUENOS AIRES - O candidato kirchnerista à presidência argentina, Daniel Scioli, governador da província mais povoada do país e jogador de futsal amador que disputa alguns minutos por semana num time profissional, afirmou no intervalo de uma partida na noite de sábado que "quiseram dividir Brasil e Argentina" em temas como Mercosul, mas ele pretende restabelecer a relação comercial entre os vizinhos, que hoje baixou aos níveis de 2009. Ele deu uma entrevista a meios de comunicação brasileiros e espanhóis.

"Procuramos sempre trabalhar integrados com o Brasil. Quiseram nos dividir e fazer com com que nos enfrentássemos para nos dominarem, mas há uma grande consciência disso", afirmou Scioli, sem detalhar quem tentou afastar os dois países. Ele salientou ter dito isso ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que esteve há três semanas na Argentina fazendo campanha para ele, e à presidente Dilma Rousseff, com quem disse esperar trabalhar. "Respeito muito as instituições", afirmou, referindo-se às propostas de impeachment contra a presidente. O novo presidente argentino assume no dia 10 de dezembro.

O Mercosul negocia uma abertura comercial com a União europeia. No fim de agosto, o ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Armando Monteiro, disse que uma troca de ofertas para um acordo entre os dois blocos ocorreria em outubro, depois de se reunir com os chanceleres Mauro Vieira e Hector Timerman, de Brasil e Argentina. Houve controvérsia sobre a extensão da abertura e o ritmo com que os países do Mercosul adeririam a ela. O Uruguai chegou a defender que a Argentina entrasse depois, pelas travas fiscais e cambiais que o país mantém. No dia 23, após uma reunião em Assunção, o vice-chanceler paraguaio, Rigoberto Gauto, afirmou que um esboço das ofertas será apresentado entre quinta e sexta-feira e a troca formal ocorrerá em novembro, após a eleição argentina, que ocorre dia 25.

As tentativas de acordo entre os blocos já duram 15 anos. "Quem governar a Argentina em 2016 tem de definir uma estratégia de inserção externa. É fundamental recuperar a aliança debilitada com o Brasil, mas também repensar e revalorizar o Mercosur, estabelecer complementariedades comerciais, produtivas e econômicas com a América Latina e finalmente decidir a estratégia de aproximação com os países desenvolvidos e os grande emergentes", disse ao Estado o economista Dante Sica, diretor da consultoria Abeceb.

Campanha. Scioli, que nunca foi o preferido de Cristina Kirchner para substituí-la, conquistou a nomeação em junho, quando aceitou Carlos Zannini, um dos ideólogos do movimento que governa há 12 anos o país, como candidato a vice. Na primária obrigatória do dia 9, Scioli obteve 39,2% dos votos. O grupo do conservador Mauricio Macri teve 30% e o do ex-kirchnerista Sergio Massa, 20,5%. Para vencer no primeiro turno, Scioli precisa alcançar 40% e abrir 10 pontos sobre o segundo colocado, possibilidade apontada por institutos que veem uma leve queda na intenção de voto de Macri. Mesmo entre as consultorias que indicam que em 22 de novembro haverá segundo turno, Scioli aparece como favorito em uma disputa com Macri - rejeitado por metade dos eleitores de Massa, o terceiro colocado.

Diante do cenário favorável, o kirchnerista tem evitado polêmicas que façam perder votos. Sua última decisão foi não participar de um debate eleitoral marcado para o domingo na Faculdade de Direito da Universidade de Buenos Aires. No sábado, questionado se era um candidato de direita, de centro ou de esquerda, rejeitou qualquer rótulo. "Sou um trabalhador incansável... Há soluções que não são de esquerda ou direita", desconversou. Para a base do kirchnerismo, Scioli representa a direita do peronismo - foi levado à política pelo liberal Carlos Menem. O perfil negociador ou "morno" de Scioli contrasta com o que o ex-presidente Néstor (2003-2007), morto em 2010, e Cristina tornaram uma marca o grupo político. Questionado pelo Estado se debateria em um segundo turno, Scioli respondeu que o faz diariamante. Segundo ele, a população "não quer uma mudança completa".

"Eu todos os dias debato. É muito difícil levar um debate com responsabilidade e seriedade quando opositores um dia dizem uma coisa, outro dia dizem outra, prometem coisas que não podem cumprir. A população me conhece há muitos anos, me vê governar, então sabe quais são as políticas que defendo. Além disso, se Macri for a um debate, depois de eu perguntar coisas sobre as quais as pessoas querem definição, vai assustar mais a população e seguir baixando nas pesquisas", provocou. Segundo a analista política Mariel Fornoni, da consultoria M&F, o eleitor argentino, em especial o de Scioli, que tem o voto consolidado, não pune o candidato que evita o debate. "Na Argentina há uma regra implícita que diz 'quem está ganhando não debate'", disse ao Estado

Scioli, ex-piloto de lancha que perdeu o braço direito em um acidente em 1989, é filho de um milionário do ramo de eletrodomésticos. Macri, também filho de empresário, formou-se em engenharia e seguiu a carreira do pai antes de entrar na política - foi presidente do Boca Juniors antes de governar Buenos Aires. Questionado se seguia amigo de seu principal rival, Scioli disse separar a vida política da pessoal. Macri e Massa acusaram nos últimos dias Scioli de negar-se a ir ao debate porque Cristina não deixava.

Questionado se aceitaria conselhos de Cristina e sobre o papel que ela teria em um governo dele, o governador lembrou que ela escolheu não disputar nenhum cargo nessa eleição e salientou que ele será o presidente. "É uma mulher de uma grande experiência e deu ao país políticas como a tenacidade para negociar com os fundos abutres,  respaldadas pelo mundo. São decisões muito pessoais dela. Eu vou ser o presidente com as atribuições que dá a Constituição, à frente do poder Executivo", disse, acrescentando que negociará com os fundos especulativos que não aceitaram a renegociação da dívida que a Argentina concluiu com 93% dos credores. Eles exigem o pagamento integral de seus bônus, o que colocou o país em calote parcial em julho de 2014 na Justiça americana. "A Argentina tem vontade e capacidade de pagamento. Quer fazê-lo em condições justas equitativas." 

Economia. Uma das questões mais incômodas para Scioli em um debate seria o controle do dólar. Com baixas reservas, no valor de US$ 32 bilhões, o país restringiu o acesso à divisa, o que afetou diretamente o comércio exterior. Scioli disse que não vai permitir uma desvalorização rápida do peso para recuperar a competitividade afetada pela alta do dólar no Brasil. "O BC vai administrar responsavelmente as reservas, com uma política monetária baseada na economia real, no consumo, na produção e no trabalho", afirmou. Ele insistiu que o país não aplicará um ajuste. "O país não necessita nenhuma medida econômica pontual que de um dia para o outro gere políticas de ajuste. Isso é o que propõe outro grupo", afirmou, referindo-se a Macri, que prometeu suspender o controle sobre o dólar no primeiro dia de governo. Massa estipulou um prazo de 100 dias. No mercado paralelo, a moeda americana é vendida a 16 pesos, enquanto no oficial é seu valor é de 9,40 pesos. "Vamos gradualmente reduzir a brecha (entre o paralelo e o oficial) no câmbio. Faremos isso progressivamente. A Argentina não vai ter problema de dólares", garantiu. 

O time de Scioli, o Villa La Ñata, cujo ginásio foi erguido em frente de sua mansão, é mantido com ajuda do próprio candidato e de patrocinadores atraídos pelo "jogador estrela". No jogo de sábado, a equipe venceu o Banfield por 5 a 3. Isso não impediu que Scioli discutisse com o seu treinador quando ele o tirou de quadra no momento em que o jogo ficou mais difícil, na metade do segundo tempo. 

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