Racismo começa quando se nega sua existência

Manchar o passado de vítimas negras para relativizar crimes alimenta discriminação

JAMELLE, BOUIE, SLATE, O Estado de S.Paulo

14 de setembro de 2014 | 02h03

Você sabia que o jovem americano negro Michael Brown era um fiel integrante de uma gangue, tinha longa ficha de infrações juvenis e costumava roubar lojas de conveniência e provocar confusões? E sabia que quando o policial Darren Wilson atirou nele não usou força injustificada, mas agiu em legítima defesa? Que Brown quebrou o osso da cavidade ocular de Wilson enquanto tentava pegar sua arma e foi morto enquanto atacava o policial na tentativa de aplicar outro golpe?

Se isso parece suspeito, sua cabeça está no lugar certo. Nada nessa história é verdade. Não há prova de que Brown fosse de uma gangue ou de que tenha cometido algum crime grave. Quando adolescente, Brown nunca foi condenado, nem enfrentou acusações quando adulto. Embora Wilson tenha sido levado ao hospital depois de se defrontar com Brown, ele não sofreu ferimentos graves: a fratura do osso é fantasia.

Mas se você leu sites como o Independent Journal Review, a imprensa de extrema direita, ou olhar a quantidade de páginas em apoio a Darren Wilson, encontrará inúmeras pessoas que engolem essa fantasia. Elas repudiam a imagem que foi divulgada de Brown: um adolescente típico, lutando para encontrar sua identidade e um modo de vida, com todas as suas convicções, ações e passos em falso. Para essa gente, Brown estava destinado a se tornar um criminoso e Wilson é um herói. Ou, como um simpatizante do policial disse durante uma manifestação em homenagem a ele: "Todo mundo vai ver que no fim foi um belo tiro. Vocês sabem, não é? O tiro valeu".

Sabemos o motivo pelo qual a família de Brown tratou de divulgar imediatamente um retrato carinhoso dele. Como todos os pais nessa situação, eles queriam que o mundo o visse como eles o viam - um rapaz decente que não merecia morrer.

A indagação diz respeito a outra questão: por que atacar a reputação de Brown? Afinal, se o intuito é um olhar objetivo, não há necessidade de explorar a personalidade de Brown ou Wilson como indivíduos. Brown podia ser Gandhi ou o Unabomber; o que interessa no caso é o que aconteceu naqueles breves instantes nas ruas de Ferguson, no Estado de Missouri.

Culpa da vítima. Por outro lado, os ataques a Brown não deveriam nos surpreender. É notório que em todos os tipos de crimes - e, particularmente, nos ataques sexuais - as pessoas procuram imediatamente culpar a vítima. Essa é uma das razões pelas quais um estupro é tão pouco denunciado: muitas mulheres (e homens) não toleram ataques ao próprio caráter. Vemos isso também no caso específico dos jovens negros assassinados por brancos (policiais ou não) em circunstâncias ambíguas.

Em 1955, Roy Bryant e J.W. Milam sequestraram e mataram Emmett Till, de 14 anos, depois de ele supostamente falar com uma branca - Carolyn, mulher de Bryant - em sua mercearia no Mississippi. Depois que os matadores foram inocentados por um júri composto exclusivamente por homens brancos, contaram a história ao romancista William Bradford Hui. Na versão da história dos dois, escreve o historiador Philip Day, Till era "insolente e não se emendava".

Meio século mais tarde, vimos uma dinâmica semelhante no caso da morte de Trayvon Martin. Embora inúmeros americanos demonstrassem sua simpatia pela família, muitos outros estavam ansiosos por manchar a imagem do jovem de 17 anos que morrera, e encontraram um canal na Fox News. "Quando você se veste como delinquente, as pessoas o tratarão como delinquente", disse o convidado da Fox Geraldo Rivera, referindo-se ao agasalho que Trayvon vestia.

O site TheBlaze, de Glenn Beck, publicou uma lista de crimes que Trayvon teria cometido (as provas eram escassas) e sites de direita exibiram uma foto em que identificavam "o verdadeiro Trayvon Martin", mentira rapidamente exposta porque se tratava da fotografia de The Game, um rapper de 33 anos. Algo semelhante aconteceu com Brown: depois de sua morte, circulou uma foto de um jovem com uma arma, supostamente identificado como Michael Brown. Tratava-se de Joda Cain, um suspeito de assassinato em Oregon.

Quando as pessoas veem homens de pele negra, pensam em crime, e a associação é tão forte que alguns criam "provas" para justificá-la. Em vez de tratar Trayvon Martin ou Michael Brown como adolescentes típicos transformados em vítimas, elas procurarão descrevê-los como "delinquentes". Mas isso não explica a proliferação das mensagens na mídia de direita. O medo em relação aos negros é um problema bipartidário e é injusto dizer o contrário.

Anti-antirracistas. É digno de nota ressaltar que as vozes que mais se fizeram ouvir nesses episódios são também as que minimizam o significado de racismo. Para esses "anti-antirracistas", as acusações de racismo são uma preocupação maior do que a verdadeira discriminação e preconceito contra negros e outras minorias. Não que eles apoiem o racismo, mas o consideram extremamente irrelevante.

Todos os problemas com as minorias, na sua opinião, têm mais a ver com uma falha cultural e não com a desigualdade racial. Além disso, se há um problema racial nos EUA, não é em relação às minorias, mas contra os brancos: "A caucasiana não é a cor que recebe ajuda", disse um dos funcionários da rede Fox, Todd Starnes, atacando um programa social voltado para jovens negros e outras minorias.

Como retórica, o "anti-antirracismo" é popular no movimento conservador. Ele foi visto na obsessão de Andrew Breitbart com a Association of Communities Organizations for Reform Now e a obsessão de Shirley Sherrod e da Fox News com os Novos Panteras Negras. Também é visto em alguns ataques ao secretário de Justiça dos EUA, Eric Holder, alegando discriminação contra os brancos. Nesse contexto, é possível entender as mensagens contra Martin e Brown.

Em outras palavras, minimizar o racismo como preocupação geral equivale também a repudiar a afirmação de que na morte dos dois adolescentes a motivação racista foi importante. Na realidade, equivale a negar que a discriminação foi importante para ambas as vítimas. Para isso, contesta-se sua própria condição de vítimas. Se Michael Brown era um delinquente, então o ato de Wilson está justificado. De repente, "o tiro valeu".

Em outras palavras, se um grande número de pessoas acredita na fantasia do delinquente Trayvon e do perigoso Michael, é porque elas precisam disso - sem os monstros, sua visão de mundo desmoronaria. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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