Radiação já chega a 16 km de Fukushima

Região sente novos tremores e técnicos planejam restaurar energia à usina ainda hoje

Cláudia Trevisan, O Estado de S.Paulo

23 de março de 2011 | 00h00

ENVIADA ESPECIAL

OSAKA, JAPÃO

Três choques secundários de forte intensidade atingiram na manhã de hoje a região de Fukushima, onde técnicos conseguiram transmitir energia ao reator número 3 da usina nuclear Daiichi, o que permitiu a volta da operação da sala de controle que mede níveis de água e temperatura no local. Aparentemente, os tremores não afetaram os trabalhos para restabelecer o sistema de resfriamento da planta e impedir novos vazamentos.

Níveis de radiação acima do normal foram detectados ontem na água do mar até 16 km de distância da usina.

A unidade 3 foi a primeira a ser religada, depois que os técnicos concluíram o trabalho de conectar cabos de eletricidade a todos os seis reatores do local. O fornecimento de energia será reiniciado em etapas, com duas unidades a cada dia. A eletricidade vai restaurar a operação das bombas que levam água aos reatores nucleares e às piscinas onde são colocadas hastes de combustível usado.

O duplo desastre que devastou a costa nordeste do Japão no dia 11 interrompeu o abastecimento de energia e comprometeu o gerador de segurança que deveria ter entrado em ação.

A falta de eletricidade levou à interrupção do bombeamento de água responsável pelo resfriamento das hastes de combustível que ficam dentro dos reatores e das que estão nas piscinas de combustível usado. Com a pane, ocorreu o aumento da temperatura e o derretimento parcial dos reatores, o que trouxe risco de vazamento de radioatividade em grande escala.

Pequenos vazamentos já ocorreram e contaminaram vegetais, leite e a água do mar nas proximidades da usina. O governo sustenta que os níveis de radiação encontrados até agora não apresentam riscos para a saúde humana. No entanto, níveis de radiação acima do normal foram detectados na água do mar até 16 km de distância da usina. Exame das amostras indicou a presença de iodo-131 em patamares 16,4 vezes superiores ao normal. Essa substância é uma das que menos preocupa, pois seu potencial radioativo se extingue depois de oito dias.

A presença de césio-134 e césio-137 é mais alarmante, pois elas produzem danos por período de 2 e 30 anos, respectivamente. Amostras de água marinha colhidas 330 metros ao sul da planta mostrou concentração 16,5 vezes acima do aceitável de césio-137 e de 24,8 vezes de césio-134. A presença de iodo-131 estava 126,7 vezes acima do nível normal. Esses patamares caíram em medições realizadas posteriormente.

O governo japonês informou à Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) que ontem e hoje colheria novas amostras de água marinha em oito locais nas proximidades da usina. O resultado dos exames será divulgado amanhã. A indústria da pesca é crucial para a maioria das cidades afetadas pelo tsunami e cumpre um papel central no suprimento do mercado doméstico, onde os peixes só perdem para o arroz na composição da dieta local.

Segundo a rede de TV estatal NHK, iodo-131 em patamar 430 vezes acima do normal também foi detectado no solo a 40 km de Fukushima Daiichi. A presença de césio-137 ultrapassava em 47 vezes o nível aceitável.

O Corpo de Bombeiros voltou ontem a lançar jatos de água nos reatores, operação que havia suspensa na segunda-feira, depois que fumaça saiu das unidades 2 e 3. Apesar dos progressos obtidos na tentativa de evitar o derretimento total dos reatores, a situação continua instável. Ontem, a temperatura na piscina que estoca combustível usado ao lado do reator 2 subiu a níveis alarmantes.

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