Radicais avançam no Mali e anunciam ataques na França

Extremistas tomam vilarejo a 400 quilômetros da capital Bamako; Paris amplia tropas e aumenta defesa interna contra atentados

ANDREI NETTO, CORRESPONDENTE / PARIS, O Estado de S.Paulo

15 de janeiro de 2013 | 02h05

Extremistas islâmicos tomaram ontem o vilarejo de Diabily, a 400 quilômetros da capital do Mali, Bamako, em uma resposta à ofensiva lançada na sexta-feira pela França no norte do país africano. O governo francês afirmou ontem que 2,5 mil homens, além de caças Rafale e Mirage, de helicópteros e veículos blindados seriam deslocados para o Mali.

O ataque francês tem como alvo grupos ligados à Al-Qaeda do Magreb Islâmico (AQMI), que tomaram progressivamente o norte do Mali desde o final de 2011, impondo a sharia - a lei islâmica - à população local. O Conselho de Segurança da ONU já havia autorizado uma operação militar internacional na região, mas a intervenção foi antecipada pelo governo da França em razão da iminente ofensiva dos islamistas em direção à capital e à ameaça de um golpe de Estado.

Em represália à ofensiva francesa, representantes do Movimento pela Unidade e pela Jihad na África Ocidental (Mujao), um dos grupos ligados à AQMI, ameaçou ontem "atingir o coração da França" com atentados.

Nos dois primeiros dias, ataques franceses foram feitos contra em alvos situados nas cidades de Nampala, Léré, Douentza e Konna - esta última retomada por forças do Mali, no sábado. Ontem, porém, os rebeldes surpreenderam lançando uma ofensiva contra a cidade de Diabaly.

De acordo com o Ministério da Defesa, o ataque teria sido comandado por Abou Zeid, um dos líderes da AQMI. "Nós sabíamos que haveria uma contraofensiva em direção ao oeste, onde estão os extremistas mais determinados, mais estruturados e mais fanáticos", reconheceu o ministro da Defesa, Jean-Yves Le Drian. "Eles tomaram Diabaly, um pequeno vilarejo, após fortes combates e resistência do Exército do Mali, que estava insuficientemente equipado."

Para o ministro das Relações Exteriores, Laurent Fabius, a primeira missão já foi cumprida: impedir o avanço dos extremistas em direção a Bamako. O objetivo agora seria apoiar os soldados do Exército do Mali e das forças da Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental (Ecowas), que tem a autorização da ONU para intervir.

A França espera obter nas próximas horas apoio logístico da Grã-Bretanha, que deve enviar aviões cargueiros para o transporte de tropas e drones para ataques aéreos. Apesar dos discursos de apoio vindos dos EUA - que também fornecem auxílio logístico, de comunicações e de informação -, além da Europa, a França continuará isolada no conflito. Nem mesmo a Alemanha, principal parceiro na União Europeia, manifestou disposição de enviar tropas terrestres ao Mali.

Em Bamako, o risco político assumido pelo presidente François Hollande foi saudado com bandeiras da França - ex-potência colonizadora -, em sinal de agradecimento pela intervenção.

Para o cientista político Pascal Boniface, diretor do Instituto de Relações Internacionais e Estratégicas (Iris), de Paris, era preciso intervir. "É possível imaginar as repercussões estratégicas da queda da capital do Mali e a amplitude do triunfo dos jihadistas se eles tivessem tomado Bamako."

As ameaças feitas pelos extremistas eram esperadas pelo Ministério do Interior, que no sábado elevou o nível de alerta de segurança da França, o plano Vigipirate. Em Paris, os principais pontos turísticos e os meios de transportes foram mais patrulhados.

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