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Radicais espalham terror e morte no 1º dia de votação presidencial na Nigéria

Explosões de carros-bomba e ataques atribuídos ao grupo Boko Haram foram lançados contra centros eleitorais, deixando 39 mortos; problemas com o sistema de identificação biométrico causaram atrasos e fizeram com que a eleição fosse estendida até hoje

Adriana Carranca, O Estado de S. Paulo

28 Março 2015 | 19h48

 A violência extremista foi a principal marca do primeiro dia de votação na Nigéria. Extremistas do grupo radical islâmico Boko Haram atacaram centros de votação no nordeste do país e vilarejos, deixando ao menos 39 mortos ontem. Em razão de problemas técnicos, as autoridades estenderam até hoje a votação no país. 

Os ataques ocorreram em Ngalda, no Estado de Yobe, no vilarejo Woru, no Estado de Gombe, onde o deputado Umaru Ali foi morto, e nas cidade de Biri e Dukku. Nas ofensivas, que deixaram 15 mortos, homens atiraram contra eleitores que seguiam para a mesa de votação. Dois carros-bomba também explodiram em centros eleitorais no Estado de Enugu, no sul, sem deixar feridos. De madrugada, 24 pessoas foram decapitadas na cidade de Buratai, noroeste, supostamente por combatentes do Boko Haram.

Além da ação de extremistas, houve falhas técnicas no novo sistema biométrico de cadastro adotado pela Comissão Eleitoral, o que causou atraso no processo de votação em todo o país. Para poder votar, os nigerianos precisam validar seus “cartões de voto” em um leitor eletrônico. Mas uma falha generalizada fez com que cada cidadão demorasse cerca de 15 minutos para validar o cartão, quando o procedimento deveria levar segundos. Um dos afetados foi o presidente do país, Goodluck Jonathan, que, após três tentativas e 30 minutos para validar o seu cartão, teve de ser inscrito manualmente na seção eleitoral de Otuoke, sua cidade natal.

A reta final da campanha na Nigéria foi marcada pela ofensiva contra o Boko Haram. Na sexta-feira, o Exército anunciou ter destruído o quartel-general do grupo na cidade de Gwoza, no nordeste do país. Segundo fontes militares, dezenas de militantes foram mortos na operação. 

O líder do Boko Haram, Abubakar Shekau, tinha declarado Gwoza a capital de seu “califado islâmico” depois de capturar a cidade em agosto. Mais de 10 mil pessoas morreram e 1,5 milhão deixaram suas casas em razão do avanço do grupo no norte da Nigéria nos últimos anos.

A ofensiva, que começou em 14 de fevereiro, conseguiu retomar todas as cidades sob o controle do Boko Haram, exceto duas – Abadam e Kala Balge.

Mas analistas políticos e diplomatas acreditam que o anúncio do Exército foi influenciado pela campanha eleitoral e a tendência é o Boko Haram se dispersar e se reagrupar depois. Segundo essas fontes, ataques terroristas, sequestros e outras ações são esperadas para os próximos dias. Outro fator que pode influenciar é a não aceitação do resultado por um dos lados. 

Na noite de sexta-feira, antes da votação, o presidente Jonathan pediu aos nigerianos que votassem em paz e alertou para o risco de ataques do Boko Haram. “Nenhuma ambição política justifica a violência ou o derramamento de sangue do nosso povo”, disse Jonathan, que adiou a eleição em fevereiro e iniciou logo depois uma ofensiva contra o grupo radical – o que muitos analistas viram como uma tentativa de última hora de influenciar os eleitores com resultados positivos no front da luta contra o terrorismo. “Limpamos (os Estados de) Adamawa e Yobe totalmente e conseguiremos fazer o mesmo com o Estado de Borno antes que comecem as votações, que confiamos que possam ser realizadas em todas as cidades do país”, disse o presidente.

“Razões que não foram consideradas adequadas, uma vez que as forças de defesa do país já vêm lutando há tanto tempo para controlar o Boko Haram”, disse ao Estado Lisa Otto, do Instituto Sul-Africano de Relações Internacionais. “Por isso, (a medida) foi vista como tática do partido governista para ganhar tempo e conquistar apoio.”

Mas, para a ONU, a expectativa em relação ao resultado da eleição, marcado por confrontos étnicos, ditaduras e golpes de Estado, é positiva. “É saudável que os nigerianos estejam exercendo seu direito de escolher um governo”, disse o enviado da ONU para a África Ocidental Mohammed Ibn Chambas. As principais ressalvas sobre Jonathan envolve o aumento da corrupção na Nigéria. A população do norte, de maioria muçulmana, se sente negligenciada na partilha dos ganhos do petróleo e da produção econômica, concentrados no sul, de maioria cristã. 

“A única razão pela Nigéria existir é que o norte não conseguia pagar seus impostos quando a região era mantida como dois Estados separados pelos britânicos. A solução dos britânicos foi uni-los. Mas, até hoje, o sul se ressente de ver o dinheiro fluindo para o norte e o norte se ressente das riquezas do sul. É um país que nunca deveria estar unido”, diz o diretor do centro de análise sobre África, do centro de estudos Conselho Atlântico, Peter Pham. 

O principal desafio do opositor Buhari, por outro lado, é seu passado como ditador nos anos 80. “O regime de Buhari foi o mais brutal e impiedoso da história da Nigéria. Ainda assim, seus partidários deixaram o país”, criticou em suas memórias o Prêmio Nobel de Literatura nigeriano Wole Soyinka./ COM AFP, REUTERS e AP

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