Radicais ignoram apelo e enfrentam a polícia no Cairo

Irmandade Muçulmana cancela protestos, mas salafistas saem às ruas pelo quarto dia seguido; uma pessoa morre

ANDREI NETTO, ENVIADO ESPECIAL / CAIRO, O Estado de S.Paulo

15 de setembro de 2012 | 03h01

Choques entre centenas de manifestantes e a polícia deixaram um morto e marcaram os protestos antiamericanos realizados ontem no centro do Cairo. Os distúrbios ocorreram nas imediações da embaixada dos EUA, apesar dos apelos feitos pelo presidente, Mohamed Morsi, e pelo principal movimento religioso do país, a Irmandade Muçulmana, contra as manifestações violentas.

Reunidos na Praça Tahrir, grupos salafistas culpavam o governo americano pelas injúrias ao profeta Maomé contidas no filme Inocência dos Muçulmanos, postado no YouTube.

Os incidentes trouxeram de volta as cenas de violência registradas em 2011 no centro do Cairo. Desta vez, o movimento dividiu-se em dois. Na Praça Tahrir, epicentro da revolução no ano passado, centenas de militantes empunhavam bandeiras negras e verdes com dizeres "Não há deus além de Alá e Maomé é seu profeta".

O símbolo é usado também pela Al-Qaeda, mas ontem identificava os movimentos salafistas (ultrarradicais islâmicos) que protestavam pacificamente, com gritos de ordem.

A cerca de 300 metros, às margens do Rio Nilo, o cenário era outro. Centenas de jovens armados de pedras enfrentavam tropas de choque da polícia na Qasr al-Nil, uma das principais avenidas da capital. Os embates se concentravam na frente de dois hotéis internacionais, Intercontinental e Shepheard, situados a 180 metros da Rua Tawfik Diab, onde fica a embaixada dos Estados Unidos.

Por precaução, as forças de ordem haviam bloqueado desde a quinta-feira todos os acessos à via, posicionando tropas e carros de combate.

Sob fogo. O Estado acompanhou a ofensiva dos jovens, reprimida pela polícia do Egito com disparos de bombas de gás lacrimogêneo, que provocavam ardência nos olhos e nas vias respiratórias.

À noite, um jovem morreu nos choques depois de ser ferido por dois disparos de munição de borracha. A morte acentuou o tumulto, obrigando a polícia a reforçar suas posições.

Entre os manifestantes, o discurso mais frequente era o de que os protestos eram contra os produtores do filme, que ridiculariza e retrata de modo ofensivo o profeta Maomé.

"Não estou aqui para invadir a embaixada dos Estados Unidos, mas para cobrar uma punição dessas pessoas que ofenderam a nossa religião", disse um dos jovens, que escondia o rosto com um keffieh - um lenço típico dos palestinos - e pediu para não ser identificado.

Os que enfrentavam a polícia, entretanto, eram uma pequena minoria no Cairo, recriminada por quem observava os distúrbios. Para o estudante Karim ElAssiouty, aqueles que confrontavam a polícia o faziam por vingança contra as forças de ordem, e não pelo filme.

"São jovens, nem religiosos são", disse ele. "Estão aqui para aproveitar a oportunidade de acertar as contas com a polícia, como acontece sempre que possível no Cairo."

Na Província de Sinai, próximo à Faixa de Gaza, islamistas radicais também atacaram uma base da Força Multinacional de Observadores (FMO), uma unidade de manutenção da paz das Nações Unidas. Quatro militares teriam ficado feridos, incluindo colombianos e um peruano.

Os incidentes no país aconteceram apesar da intervenção do presidente Morsi, que na quinta-feira - sob intensa pressão do governo de Barack Obama - pediu calma aos manifestantes.

Ontem, horas antes da mobilização, a Irmandade Muçulmana retirou seu chamado nacional aos protestos. "O grupo decidiu participar apenas de uma manifestação simbólica na Praça Tahrir, a fim de que não haja mais destruição de bens, feridos ou mortos como no passado", afirmou Mahmoud Hussein, secretário-geral do movimento.

Morsi foi duramente criticado nos EUA por não ter condenado inicialmente os ataques à embaixada americana, mas apenas o filme anti-islâmico.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.