Radicais impõem tortura e morte em reduto cristão

Em depoimento ao Estado, sobrevivente relata espancamento e ameaça de amputação de braço que tem tatuagem da Virgem

LOURIVAL SANT'ANNA, ENVIADO ESPECIAL, O Estado de S.Paulo

17 de agosto de 2014 | 02h04

ERBIL,  IRAQUE - No dia 1º de agosto, o padre de Qarqoush, reduto cristão de 50 mil habitantes a cerca de 50 km de Erbil, capital do Curdistão iraquiano, fez um apelo para os fiéis não deixarem a cidade, apesar da aproximação dos jihadistas do Estado Islâmico (EI), que vinham dizimando os não-sunitas. "Se houver alguma coisa, vamos tocar os sinos", prometeu ele.

Quatro dias depois, o general Zervani, do Exército curdo, encarregado da segurança da cidade, reiterou que não havia risco, e que a população não devia partir. "Mas o Exército se retirou antes de nós", recorda Mukhliz Youssef Yaqoub (cujo nome significa Salvador José Jacó), de 37 anos, que trabalhava como guarda da Igreja São Jacó.

Às 6 horas da manhã do dia seguinte, Yaqoub ouviu tiros. "Bati nas portas de dez vizinhos, e não havia mais ninguém." Ele foi até a delegacia de polícia e ao quartel do Exército, e tudo estava vazio. Então, decidiu fugir. Sua mulher tinha tido um sangramento do útero dois dias antes, e viera com os filhos fazer um tratamento em Erbil.

Perto do hospital, Yaqoub deparou com uma caminhonete com 15 homens barbudos, com tinham metralhadoras e fuzis. "Não AK-47", salientou o guarda, querendo dizer que as armas são mais sofisticadas que os ultrapassados fuzis usados pelos peshmergas, combatentes curdos. Exigiram documentos. Quando viram o nome cristão, começaram a espancá-lo.

Mandaram que se convertesse ao Islã. Yaqoub perguntou: "A qual corrente?" Responderam: "À do Estado Islâmico". O guarda da igreja desafiou: "Não reconheço o Estado Islâmico como uma religião". E continuou apanhando, com uma corrente.

Tiraram suas roupas e encontraram a imagem da Virgem Maria tatuada no braço direito. Tentaram arrancar o braço. Yaqoub conta ter dito a eles: "Arranquem minha cabeça, mas não cortem meu braço". Ele afirma que reconheceu um dos homens, da localidade de Al-Hawi. Os outros eram desconhecidos. Dos 15, apenas dois - justamente os que o espancavam - tinham rostos cobertos com panos, não falavam árabe, e eram ajudados por um tradutor.

Os homens ficaram com o dinheiro e a aliança de ouro de Yacoub, e queimaram seu passaporte, devolvendo-lhe apenas a carteira de identidade. Às 16 horas, eles o deixaram, somente de cueca, perto da Abadia de São Siríaco. "Eu estava coberto de sangue." Yaqoub foi caminhando pela estrada, até encontrar um posto de controle dos peshmergas, que o trouxeram para a Igreja de São José, em Erbil, onde centenas de cristãos da corrente católica síria de Qarqoush estão abrigados. Outros milhares estão espalhados por escolas de Erbil. Eles contam que nunca tinham tido problema por serem cristãos.

Yaqoub relata que um padre o levou ao hospital para examinar seu olho esquerdo, e chegaram a marcar cirurgia para o dia seguinte. Mas, na mesa de cirurgia, os médicos concluíram que não havia cura. Além de cego do olho esquerdo, ele caminha mancando. Com sua tatuagem da Virgem Maria e sua rejeição do Estado Islâmico, Yaqoub tem muita sorte de estar vivo.

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