Radicais matam embaixador dos EUA na Líbia; em campanha, Obama reage

Labirinto líbio. Diplomata que coordenou a aliança de Washington com rebeldes anti-Kadafi, Christopher Stevens, e outros três funcionários americanos são mortos em ataque armado ao consulado em Benghazi; 'justiça será feita', garante presidente

DENISE CHRISPIM MARIN , CORRESPONDENTE / WASHINGTON , ANDREI NETTO , CORRESPONDENTE / PARIS, O Estado de S.Paulo

13 de setembro de 2012 | 03h04

Os EUA não descansarão enquanto os responsáveis pelo assassinato do embaixador americano na Líbia, Jay Christopher Stevens, e de outros três diplomatas não forem levados à Justiça, declarou ontem o presidente Barack Obama. "Não se enganem: a justiça será feita", prometeu, em meio à grave crise diplomática aberta em plena campanha à reeleição.

Stevens foi morto após um ataque a tiros e granadas contra o Consulado dos EUA em Benghazi, epicentro da revolução do ano passado. Ele foi o primeiro embaixador americano assassinado em serviço desde 1979, quando Adolph Dubs foi alvo de insurgentes no Afeganistão. Além dos americanos, nove líbios morreram e o complexo que abriga a missão diplomática foi tomado pelo fogo. Grande parte do pessoal do corpo diplomático dos EUA na Líbia recebeu ordem para deixar o país.

Em meio a crescente tensão, o Pentágono deslocou dois destróieres e para a costa da Líbia para ficarem "à disposição" do presidente. Pelo menos 50 marines foram enviados ao país.

Os incidentes ocorreram na noite de terça-feira, 11 de setembro, enquanto multidões em várias cidades do mundo islâmico protestavam contra o filme Inocência dos Muçulmanos, que ridiculariza o Islã (mais informações na página A20). A morte de Stevens foi informada pelo ministro-adjunto do Interior da Líbia, Wanis al-Sharif. As circunstâncias exatas do assassinato, entretanto, ainda são desconhecidas.

De acordo com as primeiras investigações líbias, manifestantes cercaram o consulado para arrancar a bandeira dos EUA, em protesto contra o filme. Entre eles, estavam militantes da brigada Ansar al-Sharia (Defensores da Sharia), grupo radical que prega a adoção da lei islâmica.

Nos bastiodres, autoridades americanas afirmaram que há fortes indícios de que o ataque foi cuidadosamente planejado, diferentemente dos protestos no Cairo. O complexo onde ficam os prédios do governo americano, no centro de Benghazi, pegou fogo e, sob forte fumaça, colegas e seguranças da missão perderam contato com o embaixador. Os agressores estavam fortemente armados: marines e forças líbias, com apoio de um grupo miliciano aliado, levaram mais de quatro horas para retomar o controle sobre o local.

Stevens foi retirado do prédio "provavelmente por líbios", segundo os EUA, e levado a um hospital. Horas depois, seu cadáver foi entregue a diplomatas americanos no aeroporto de Benghazi. Os EUA só informarão a causa da morte do embaixador após realizarem uma autópsia.

Segundo Sharif, "tiros vindos de dentro do consulado causaram a ira dos manifestantes" e os americanos "não tomaram precauções necessárias". O funcionário líbio afirmou ainda que os milicianos seriam leais ao ditador Muamar Kadafi. "São resquícios do antigo regime."

Salvador. Em sua curta declaração, ao lado da secretária de Estado, Hillary Clinton, Obama destacou a coragem do embaixador e afirmou que ele "ajudou a salvar" Benghazi.

Pouco antes, Hillary havia exaltado a missão desempenhada por Stevens, no ano passado. "Como isso aconteceu em um país que ajudamos a libertar, na cidade que ajudamos a salvar?"

O episódio e a reação da Casa Branca se converteram em munição eleitoral. Antes da fala de Obama, previamente agendada e anunciada, seu rival republicano, Mitt Romney (mais informações nesta página), criticou os "cálculos errados" e as "mensagens confusas" da atual política externa.

Coube ao porta-voz da campanha de reeleição de Obama, Ben LaBolt, rebater as críticas dos republicanos. "Estamos chocados com o fato de, na hora em que os EUA se confrontam com a trágica morte de um diplomata na Líbia, Romney ter escolhido fazer um ataque político."

Aliados de Romney no Congresso prepararam o terreno para o corte da ajuda financeira dos EUA ao novo governo da Líbia. A prorrogação da ajuda até março será votada hoje. "Ficou mais fácil dizer não", disse o deputado republicano Jeff Landry. / COLABOROU ROBERTO SIMON

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