Radicais proíbem ensino de arte e história em Mossul

Aulas de literatura e música também estãovetadas pelo 'califa' Al-Baghdadi; alguns moradores resistem

SINAN SALAHEDDIN , VIVIAN SALAMA , ASSOCIATED PRESS / BAGDÁ, O Estado de S.Paulo

17 de setembro de 2014 | 02h03

Mossul, no Iraque, está prestes a iniciar um novo ano letivo. Mas, diferentemente dos anos anteriores, não haverá aulas de arte nem música. Os cursos de história, literatura e cristianismo foram "permanentemente anulados".

O Estado Islâmico declarou que as canções patrióticas são formas de blasfêmia e ordenou que determinadas imagens sejam removidas dos livros escolares.

A segunda maior cidade do Iraque respondeu aos militantes sunitas com o silêncio - ao menos até agora. Embora os extremistas tenham estipulado que o ano escolar começaria no dia 9, os alunos não foram às aulas. Famílias mantêm os filhos em casa por um misto de medo, resistência e incerteza.

"Para nós, o importante é que as crianças continuem a receber conhecimento de maneira adequada, ainda que percam um ano escolar ou um certificado oficial", disse um morador de Mossul identificado como Abu Hassan, um pseudônimo para evitar represálias. Ele e a mulher optaram por ensinar os filhos em casa, buscando livros necessários no mercado local.

A queda de Mossul, em 10 de junho, foi um marco na guerra do Iraque contra o grupo jihadista que chama a si mesmo de Estado Islâmico (EI). O Exército iraquiano, treinado pelos EUA, mas enfraquecido por meses de ataques em menor escala, cedeu quase instantaneamente quando os militantes avançaram sobre a cidade. Os comandantes desapareceram.

Nas partes da Síria sob seu controle, o EI cuida hoje dos tribunais, conserta estradas e até vigia o tráfego. Recentemente, impôs um currículo escolar em seu principal reduto na Síria, a cidade de Raqqa, eliminando matérias como filosofia e química, e ajustando o currículo de ciências para se moldar adequar à sua ideologia.

Em Mossul, as escolas receberam um novo conjunto de regras, anunciadas num aviso afixado nas mesquitas, mercados e postes. A proclamação, feita no dia 5, celebrava a "boa notícia do estabelecimento da Diwan (diretriz) de Ensino do Estado Islâmico pelo califa, que busca eliminar a ignorância, divulgar as ciências religiosas e combater o currículo decadente". O novo currículo de Mossul, que teria sido definido pelo próprio Abu Bakr al-Baghdadi, sublinha que todas as referências às repúblicas do Iraque e da Síria devem ser substituídas por "Estado Islâmico". Fotos que violem a interpretação ultraconservadora do Islã serão arrancadas dos livros. Hinos e letras que incentivem o amor ao país são vistos agora como demonstração de "politeísmo e blasfêmia", sendo rigorosamente proibidos.

O novo currículo escolar chegou ao ponto de proibir explicitamente a Teoria da Evolução de Charles Darwin - embora esta não fosse lecionada anteriormente nas escolas iraquianas.

Abu Hassan e outros moradores reconhecem o risco de manter as crianças em casa, mas dizem que proteger a consciência delas é igualmente importante. "As crianças sofrerão lavagem cerebral e seus pensamentos serão contaminados", disse ele.

Não ficou claro se os professores e os funcionários das escolas também preferiram ficar em casa em vez de ir trabalhar. Na declaração, o "califa" Al-Baghdadi convoca os profissionais do Iraque e do exterior a "ensinar e servir aos muçulmanos para que o povo do Estado Islâmico possa progredir em todas as áreas das ciências religiosas e outras". Em Bagdá, o Ministério da Educação diz que não mantém contato com Mossul e outras cidades no território controlado parcialmente pelo Estado Islâmico, que corresponde a quase um terço do Iraque.

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