Radicais protestam contra presidente paquistanês

A manifestação de hoje em Peshawar ressaltou o clima de enfrentamento criado nos últimos dias entre os grupos islâmicos mais radicais do país e o presidente paquistanês, Pervez Musharraf. Muitos dos cartazes carregados pelos manifestantes acusavam Musharraf de ser "um traidor do Islã" por causa de seu apoio quase irrestrito à campanha liderada pelos EUA contra a rede terrorista do saudita Osama bin Laden, baseada no Afeganistão. Insultos contra o presidente - que há dois anos tomou o poder depois de comandar um golpe de Estado contra o então primeiro-ministro Nawaz Sharif - foram ouvidos diante da mesquita Jamma Maj Usrab, na Cidade Velha de Peshawar, núcleo dos protestos de hoje. "Musharraf selou seu destino ao optar pela América contra os muçulmanos", disse um dos ativistas à Agência Estado. "Seus dias estão contados. Apoiar um ataque contra os afegãos é o mesmo que apoiar um ataque contra o Paquistão, pois somos o mesmo povo." A afirmação não é exagero de retórica. A fronteira que separa o Paquistão do Afeganistão não passa de mera formalidade. Os pashtuns paquistaneses têm a mesma origem dos pashtuns do Taleban. Muitos têm familiares espalhados pelos dois países e alguns pashtuns do lado paquistanês, depois de os talebans terem chegado ao poder no Afeganistão, adotaram o mesmo rígido código de conduta imposto pela milícia islâmica afegã. Já na quinta-feira, durante uma marcha de mulheres promovida em Peshawar pela Jamiat-i-Islamiya, o mais importante partido islâmico do país, a revolta contra Musharraf era patente. "Os dólares americanos podem comprar Musharraf, mas não compram um povo", disse uma líder regional da ala feminina do partido, Rashada Zafar, ao jornal paquistanês em língua inglesa Dawn. "As mulheres da Jamiat-i-Islamiya já estão preparando seus maridos, irmãos e filhos para a jihad contra as injustiças das forças antiislâmicas e não se esquecerão de Musharraf." A determinação da polícia paquistanesa em reprimir o protesto em Peshawar só aumentou o descontentamento com Musharraf, que já era grande desde que o presidente ordenou a prisão domiciliar de três líderes religiosos ligados ao Taleban e veio a público a informação segundo a qual o Paquistão havia posto à disposição das tropas americanas dois aeroportos no sul do país. O ministro do Interior paquistanês, Moinuddin Haider, confirmou a concessão dos aeroportos, mas ressaltou que eles não serão usados pelo Exército americano para lançar ataques contra o Afeganistão. As bases paquistanesas, segundo o governo, servirão apenas para operações de recolhimento de cadáveres e operações de resgate de emergência, se necessário. Haider, porém não quis responder às perguntas sobre quais são os aeroportos a serem utilizados para essas forças. Fontes de imprensa de Islamabad acreditam que eles estão localizados em Jacobabad e Pasni, no sul do país, mas não descartam a possibilidade de as bases aéreas Gwandar e Sindh, também no sul, serem requisitadas por Washington. O governo de Musharraf comprometeu-se a fornecer à coalizão antiterror informações de inteligência sobre o Taleban e a permitir a utilização de seu espaço aéreo para operações militares lideradas pelos EUA. Leia o especial

Agencia Estado,

12 Outubro 2001 | 15h22

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