Radicais são fracos na Líbia, origem das últimas revoltas

Análise: Andrei Netto

O Estado de S.Paulo

17 de setembro de 2012 | 03h02

Em fevereiro de 2011, Muamar Kadafi, o ditador que ocupava havia 41 anos o poder na Líbia, gastou as cordas vocais em discursos para argumentar que precisava ficar no poder ou radicais islâmicos assumiriam as rédeas na Líbia. O ataque terrorista que resultou na destruição do Consulado dos EUA em Benghazi e na morte do embaixador Christopher Stevens pareceu dar razão ao coronel, mas não é isso que ocorre na Líbia.

Os grupos radicais islâmicos armados têm mais força na Cirenaica, no leste do país, mais especificamente na cidade de Derna, não longe de Benghazi. Nos anos 1990, houve levantes islâmicos na região, alguns dos quais liderados pelo Grupo Islâmico Líbio de Luta. Em 1996, membros do movimento estiveram entre os 1,2 mil mortos no massacre da prisão de Abu Salim, em Trípoli. Nos anos seguintes, parte desses grupos extremistas fechou acordos com Kadafi, garantindo sua sobrevivência sem importunar (muito) o regime. Vem dessa época, por exemplo, a ruptura final da sociedade líbia com a Irmandade Muçulmana, que - como provaram as eleições de julho - não vingou no país.

Na visão de muitos líbios, o extremismo islâmico não era um real adversário de Kadafi, mas um oponente que tirava algum proveito do poder. Essa é uma das razões pelas quais os movimentos radicais não são populares, nem o antiamericano é um sentimento presente. Para o jurista Hadi Shalluf, membro do Tribunal Penal Internacional (TPI), a sociedade líbia não alimenta um desejo de destruição dos EUA. "Ao contrário, os líbios querem participar da comunidade internacional", diz ele.

O primeiro desafio para evitar novos episódios de extrema violência é fortalecer as instituições públicas, em especial o Ministério do Interior, destruído após a revolução. Ainda não há polícia institucionalizada e as forças armadas engatinham. "O governo ainda é muito fraco e não consegue se impor. Mas o povo líbio é contrário a esses ataques", afirma Mustafá Abulgasen Kashiam, cientista político da Universidade de Trípoli.

Em paralelo, é preciso acelerar o desarmamento da população civil, para isolar os grupos extremistas que de fato existem. A partir de então, uma caça aos grupos terroristas terá, cedo ou tarde, de ser lançada.

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