Radicais usam redes sociais em recrutamento

Segundo estimativas, grupos jihadistas recorrem à interação da internet para atrair até 20% de seus membros

ALESSANDRO GIANNINI, O Estado de S.Paulo

24 de agosto de 2014 | 02h02

Redes sociais são responsáveis pela atração e recrutamento de cerca de 20% dos voluntários que se alistam em milícias radicais como o Estado Islâmico (EI) e Al-Shabab, da Somália. Segundo o Departamento de Defesa dos EUA, somente na Síria, dos cerca de 10 mil voluntários que combatem o regime de Bashar Assad, mais de 2 mil foram recrutados por esse meio.

O recrutamento online de grupos radicais como o EI funciona como qualquer alistamento em grupos de interesse específico nas plataformas sociais. Primeiro, a pessoa demonstra interesse em um determinado grupo porque leu alguma coisa a respeito fora da rede ou ouviu de colegas e amigos no mundo real. Quando se sabe o que procurar, fica mais fácil encontrar vídeos e informações alternativas simpáticas às milícias.

"Então, você pode fazer contato com outros usuários", explica Erin Saltman, pesquisadora da Fundação Quillman, organização britânica dedicada a combater o extremismo, especializada no uso de redes sociais por grupos radicais. "A internet pode ser usada para educar, doutrinar e socializar indivíduos em ideologias."

Segundo Erin, o uso das redes sociais por extremistas se desenvolveu paralelamente à evolução dessas plataformas nas sociedades civis, mas foi somente nos últimos dois ou três anos que os radicais avançaram no domínio dessas ferramentas. "O EI, por exemplo, desenvolveu o próprio aplicativo para ajudar a espalhar mensagens por meio de outras contas - o aplicativo foi recolhido posteriormente", explica ela.

O aplicativo Aurora foi lançado em abril e tem um princípio simples: uma vez instalado no aparelho do usuário, permite que publicações feitas no perfil do EI sejam replicadas automaticamente na página sua página no Twitter - isso evitava os algoritmos antispam da plataforma. De acordo com a revista The Atlantic, no pico de atividade, durante a tomada de Mossul, no Iraque, foram publicados 40 mil tuítes.

Para o blogueiro americano e especialista em segurança nacional John Little, as mídias sociais "expõem o planeta todo". "Por que eu deveria acompanhar o noticiário da TV a cabo sobre o Curdistão quando posso entrar na internet e também monitorar tuítes de verdadeiros curdos, políticos curdos, socorristas no Curdistão e diplomatas na região?"

De acordo com ensaio publicado por Aaron Zelin, analista de política para o Oriente Próximo do Washington Center, nos EUA, a atual mobilização de combatentes estrangeiros na Síria não tem precedentes na história. Ele estima que cerca de 3 mil estrangeiros deixaram países ocidentais para se envolver no conflito sírio.

Dois incidentes recentes comprovam a tese de Zelin. No início do mês, o australiano Khaled Sharruf publicou a foto de seu filho de 7 anos paramentado com acessórios militares segurando com as duas mãos a cabeça decapitada de um soldado sírio morto em confronto com milícias do EI. Pouco mais de uma semana depois, o vídeo que mostra a decapitação do jornalista americano James Foley, sequestrado em 2012 na Síria, chamou a atenção pela presença de um carrasco de inglês impecável.

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