Radical demais para a Al-Qaeda

Ao se afastar do Isil, organização fundada por Bin Laden mostra que já não une terroristas

Liz Sly, The Washington Post/O Estado de S.Paulo

05 de fevereiro de 2014 | 02h02

A Al-Qaeda dissociou-se formalmente da sua antiga afiliada no Iraque e na Síria, depois de meses de rixas. Isso mostra uma influência cada vez menor da liderança da organização fundada por Osama bin Laden sobre a nova geração de militantes radicais.

O repúdio ao Estado Islâmico do Iraque e do Levante (Isil) pela Al-Qaeda ocorre depois do fracasso das repetidas tentativas do líder da Al-Qaeda, Ayman al-Zawahiri, de acabar com uma disputa entre o Isil e outro grupo afiliado, a Frente Al-Nusra, que irrompeu em áreas controladas por rebeldes no norte da Síria. "O Isil não é uma ramificação do grupo Al-Qaeda. Não tem uma relação organizacional com ela e a Al-Qaeda não é responsável por suas ações", foi o teor do comunicado do comando da organização terrorista, no primeiro repúdio formal a um grupo afiliado.

A rejeição sugere também que a Al-Qaeda não tem mais representação no Iraque, onde o Isil nasceu e renasceu nos últimos meses depois de derrotas infligidas pelas tropas americanas, tornando-se um grande desafio para o premiê Nuri al-Maliki.

Com a decisão da Al-Qaeda, a Al-Nusra, considerada pelos sírios mais moderada do que o Isil, torna-se o único representante da organização na Síria, onde vários grupos armados lutam para derrubar o presidente Bashar Assad, e em algumas áreas lutam entre si.

Um agente americano ligado à luta contra o terrorismo qualificou o comunicado da Al-Qaeda como um ato "sem precedentes" e disse que Zawahiri não "tinha muita escolha senão anunciar a ruptura que, sob todos os aspectos, já se verificava". Embora o peso da marca Al-Qaeda ainda atraia muitos jihadistas em todo o mundo, o Isil "nunca dependeu da Al-Qaeda em termos de recursos ou comando, de modo que o impacto tangível da decisão pode não ser importante", disse ele.

O comunicado da Al-Qaeda sugere que a conhecida brutalidade com que o Isil age deu motivo para a ruptura. A Al-Qaeda citou a importância das "consultas" e do "trabalho em equipe", qualidades que o Isil tem ignorado na sua agressiva expansão no norte da Síria desde que anunciou sua formação em abril passado. "Com certeza Zawahiri acha que o Isil é um risco para a marca Al-Qaeda", disse Aaron Zelin, que investiga os movimentos jihadistas no Institute for Near East Policy, em Washington. "Eles não estão fazendo um jogo limpo com os outros grupos e agem como um Estado soberano, enfurecendo outros rebeldes e prejudicando a luta contra o regime."

As táticas brutais do grupo, incluindo decapitações, fustigações, proibições de fumar, ouvir música e outros comportamentos considerados anti-islâmicos, têm provocado a ira dos cidadãos sírios, o que culminou há um mês numa revolta generalizada contra o Isil no norte da Síria em que a Al-Nusra, combateu o Isil ao lado de rebeldes mais moderados. Mas o Isil contra-atacou e conseguiu manter o controle da Província de Raqqa e de grandes áreas rurais de Alepo, incluindo campos de petróleo.

Embora a Al-Nusra seja agora a única afiliada da Al-Qaeda na Síria, o Isil é o grupo que segue mais agressivamente o programa da organização terrorista no sentido de estabelecer um califado islamista com instituições de Estado, afirmou Aymenn al-Tamimi, que monitora as atividades jihadistas no Iraque e na Síria pelo Middle East Forum. "A Al-Qaeda não controla o território central da maneira como faz o Isil", afirmou. A disputa coloca em evidência a nova complexidade do movimento jihadista que deu origem a inúmeros grupos novos pela região depois das revoltas da Primavera Árabe.

É cedo para dizer se esse repúdio é prenúncio de uma ruptura regional mais ampla ou só uma consequência dos atritos, de longa data, entre Zawahiri e o líder do Isil no Iraque, Abu Bakr al-Baghadadi. Muita coisa vai depender de como outros grupos ligados à Al-Qaeda na região reagirão, afirmou Bruce Riedel, diretor do Intelligence Project da Brookings Institution. "A marca Al-Qaeda ainda exerce muita atração, talvez não no Iraque, mas em muitos outros lugares. O jogo do terrorismo não é uma disputa de popularidade e Zawahiri tem uma legitimidade que Baghdadi não tem."

*Liz Sly é jornalista.

TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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