AFP PHOTO / NICHOLAS KAMM
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Radicalismo dita primeira semana do governo Trump

Impulso populista do presidente americano deve enfrentar cenário de baixa aprovação e protestos nos EUA

Cláudia Trevisan, Correspondente / Washington, O Estado de S.Paulo

29 Janeiro 2017 | 05h00

WASHINGTON - Os primeiros dias de Donald Trump no poder revelaram um presidente narcisista obcecado por sua popularidade, disposto a usar falsidades na tentativa de construir uma narrativa lisonjeira e determinado a governar para seus eleitores mais extremistas, que aplaudiam a construção do muro, a deportação de imigrantes e o bloqueio à entrada de muçulmanos nos EUA.

Trump também declarou guerra à imprensa e se empenhou na tentativa de minar a credibilidade da mídia tradicional. Em seu discurso de posse, deixou claro sua hostilidade a instituições democráticas americanas, entre as quais o seu próprio partido. A grande dúvida é se seu ímpeto populista vai sobreviver a um cenário de baixa aprovação e protestos contra seu governo.

O Trump presidente é uma versão turbinada do Trump candidato, que professa um nacionalismo extremo e tem a caneta para implementar suas propostas mais radicais.

Diretor do instituto de pesquisas Ipsos, Clifford Young diz que Trump sofre do que ele chama de “síndrome do caudilho” - o líder personalista que se apresenta como redentor disposto a destruir um sistema político que supostamente beneficia as elites em detrimento dos pobres.

Mas o discurso populista do novo presidente não garantiu até agora elevados índices de aprovação. “Trump não tem apoio da maioria da população. Ele não é Lula nem Hugo Chávez”, disse Young, , que trabalhou durante 11 anos na América Latina.

O novo presidente não fez nenhum gesto conciliatório na direção dos opositores, que superaram o número dos que o apoiaram - ele venceu no Colégio Eleitoral, mas perdeu no voto popular por 3 milhões de votos.

No dia seguinte à sua posse, cerca de 3 milhões de pessoas protestaram nas ruas de diferentes cidades dos EUA em favor dos direitos das mulheres e contra seu governo, na que foi a maior manifestação da história americana.

Mas não está claro se isso importa nesse momento, observou Erick Langer, professor de História da Universidade Georgetown, para quem o sistema de pesos e contrapesos da democracia americana está comprometido. O Partido Republicano tem maioria na Câmara e no Senado e não parece disposto a confrontar Trump.

“Isso pode servir aos interesses políticos imediatos do partido, mas eles estão cutucando a onça com vara curta. Ela pode mordê-los na forma de aumento do autoritarismo presidencial ou na derrota nas eleições legislativas de 2018”, avaliou Langer. Segundo ele, o grande símbolo da insurgência do governo Trump contra as instituições democráticas é Steve Bannon, o representante da extrema direita que ocupa o cargo de estrategista do presidente. “Bannon disse que quer explodir o sistema político e criar algo muito diferente do mundo democrático liberal.”

Por trás dos ataques da equipe de Trump, está a tentativa de minar a credibilidade da imprensa tradicional, borrar o limite entre realidade e ficção e ampliar o espaço para os “fatos alternativos”, expressão usada por uma das principais assessoras de Trump para descrever os argumentos que tentaram sustentar a falsa tese de que o público na posse do presidente superou o que assistiu a de Obama.

“A aposta da equipe de Trump é a de que não eles precisam da mídia, porque têm Twitter, a Fox News e os blogueiros e apresentadores de rádios de extrema direita”, disse o cientista político Andrew Rudalevige, especialista em história presidencial dos EUA e professor da Faculdade Bowdoin. “Eles se sentem confortáveis atacando a imprensa, mas não atingem um número suficiente de pessoas para governar.”

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