Radicalismo islâmico cresce em meio à crise

Carências populares empurram cada vez mais jovens para o fundamentalismo religioso

Michael Slackman, O Estadao de S.Paulo

24 de janeiro de 2009 | 00h00

Quando ainda cursava o ensino médio, Muhammad Fawaz, hoje com 20 anos, sonhava em ganhar uma bolsa para estudar no exterior. Mas aquilo era impossível, disse Fawaz, porque ele não tinha uma "wasta", ou conexão. Na Jordânia, as conexões são vistas como essenciais para o desenvolvimento pessoal, e o sistema das wastas é citado com frequência pelos jovens como seu principal ressentimento em relação ao próprio país.Fawaz decidiu se rebelar. Adotou o comportamento sereno e disciplinado de um ativista islâmico. Durante seu segundo ano de faculdade, foi aceito pelo grupo de estudantes filiado à Irmandade Muçulmana, o maior movimento religioso, social e político da Jordânia, movimento este que gostaria de ver o Estado governado pela lei islâmica, a sharia. Agora ele trabalha no recrutamento de outros estudantes para a causa."No movimento islâmico há justiça. Dentro dele posso me expressar. Não temos a necessidade de uma wasta", disse Fawaz. Por todo o Oriente Médio, jovens como Fawaz, irritados, alienados e privados de oportunidades, aceitam o Islã como agente da mudança e da rebelião. Através do Islã, eles desafiam o status quo e contestam os governos considerados por eles como incompetentes e corruptos.Os líderes dos países muçulmanos tentaram apaziguar as demandas populares, fazendo de tudo ao seu alcance para desencorajar a negociação direta entre o Ocidente e os movimentos religiosos. Eles enxergam a perspectiva de um degelo nas relações com o Ocidente, e veem nestes grupos uma ameaça ao seu monopólio sobre o poder. Os governos autoritários consideram a moderação relativa um desafio político maior do que o extremismo, que consiste num problema de segurança que pode ser contido por meio de métodos drásticos."As pessoas consideram estes movimentos menos corruptos que os governos. O regime teme a Irmandade Muçulmana nos seus momentos de maior pragmatismo", disse Muhammad Abu Rumman, editor do jornal Al Ghad, de Amã.A crise financeira fez aumentar a ansiedade do Oriente Médio, que esperava pelo desenvolvimento econômico como forma de promover melhorias na condição de seus cidadãos, diluindo a atração exercida pelos movimentos islâmicos. Mas a crise e a queda do preço do petróleo os atingiram duramente. Neste ambiente, os governos são obrigados a enfrentar uma realidade que eles mesmos ajudaram a criar. Ao estrangular a democracia e a liberdade de expressão, o único espaço que restou para estes grupos foi a mesquita, e os únicos movimentos que encontraram meios de prosperar foram aqueles que tinham como base a religião.

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