Rafsanjani exige libertação de presos

No tradicional sermão de sexta-feira, ex-presidente diz que ?confiança da população foi afetada?; protestos contra eleição voltam às ruas de Teerã

NYT, REUTERS E AP, O Estadao de S.Paulo

18 de julho de 2009 | 00h00

A crise política voltou a atormentar o governo iraniano. Ontem, o ex-presidente do Irã Akbar Hashemi Rafsanjani, um dos mais influentes clérigos do país, disse que a repressão às manifestações causou uma perda de confiança da população em seus líderes. Falando a uma multidão durante a tradicional oração de sexta-feira, na Universidade de Teerã, Rafsanjani, rival declarado do presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, pediu a libertação dos iranianos presos durante a última onda de protestos. "Para recuperar a confiança do povo iraniano, não é necessário que pessoas fiquem detidas", disse. "Deixem que retornem a suas famílias. Não devemos permitir que os inimigos nos ridicularizem por causa de detenções. Devemos tolerar uns aos outros."O líder da oposição iraniana, o moderado Mir Hossein Mousavi, também participou da oração. Foi sua primeira aparição oficial desde a disputa eleitoral. O sermão, considerado por analistas como um termômetro para medir a temperatura política do Irã, teve a presença de outro candidato reformista derrotado, Mehdi Karroubi.A prece logo se transformou em ato político. Do lado de fora da universidade, milhares de manifestantes com bandeiras verdes - a cor do Islã e símbolo da candidatura de Mousavi - voltaram a protestar contra a reeleição de Ahmadinejad. Membros da milícia basij e policiais usaram gás lacrimogêneo e golpes de cassetetes para dispersar a multidão, que gritava palavras de ordem contra o governo. Alguns manifestantes gritavam "Morte à Rússia", em protesto contra o fato de Moscou ter reconhecido a vitória de Ahmadinejad. Pelo menos 15 pessoas foram presas.O Irã mergulhou em uma crise política após a vitória folgada de Ahmadinejad sobre o moderado Mousavi nas eleições presidenciais de junho. Mousavi e seus partidários, que esperavam uma disputa apertada, acusam o governo de fraude e exigem uma nova votação.Os protestos, os maiores desde a Revolução Islâmica de 1979, duraram cerca de duas semanas. O número oficial de mortos é de 20, mas segundo informações extraoficiais o total de vítimas é bem maior. Centenas de opositores foram presos.O Conselho dos Guardiães, órgão que fiscaliza o processo eleitoral, reconheceu que cerca de 3 milhões de votos foram fraudados, mas afirmou que o resultado da votação será mantido e a posse de Ahmadinejad marcada para o mês que vem.No discurso de ontem, Rafsanjani não questionou diretamente o resultado das eleições, mas pediu que o aiatolá Ali Khamenei, líder supremo do Irã, busque uma conciliação com seus adversários. Qualificando os protestos pós-eleitorais como uma "crise política", Rafsanjani exigiu o fim das restrições à liberdade de imprensa e criticou o Conselho dos Guardiães, dizendo que o órgão não usou bem o tempo dado pelo aiatolá Khamenei para investigar as fraudes eleitorais. "Existem dúvidas sobre o resultado das eleições", disse. "Devemos tomar medidas para acabar com essas dúvidas."

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