REUTERS/Henry Nicholls
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Rainha aprova pedido de Jonhson para suspender Parlamento e complica acordo do Brexit

Premiê requisitou suspensão de cinco semanas das atividades parlamentares; oposição o acusa de forçar saída da UE sem acordo

Redação, O Estado de S.Paulo

28 de agosto de 2019 | 11h39
Atualizado 29 de agosto de 2019 | 15h39

LONDRES - O primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, pediu nesta quarta-feira, 28 – e a rainha Elizabeth II aceitou – um prolongamento do recesso parlamentar até o dia 14 de outubro. A manobra regimental diminuiu a janela para debate e aprovação de qualquer medida sobre a saída do Reino Unido da União Europeia com o Brexit, previsto para 31 de outubro.

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O Parlamento britânico já está de recesso, mas voltará a funcionar na semana que vem. Normalmente, haveria uma nova pausa de alguns dias para que os deputados voltassem a seus distritos, organizassem convenções e realizassem consultas à população. O que Johnson fez foi esticar essa folga por cinco semanas. 

Agora, a oposição e os conservadores que são contra um Brexit sem acordo terão apenas duas semanas para agir. Assim que a rainha aceitou o pedido de Johnson, muitos britânicos protestaram nas ruas. Diversas manifestações foram registradas em várias cidades, entre elas Edimburgo, Cardiff, Manchester, Bristol, Cambridge e Durham.

Em Londres, houve uma grande mobilização na região de Westminster, onde se encontram a sede do Parlamento e o Palácio de Buckingham. Os manifestantes pediram o fim do “golpe” e a renúncia do primeiro-ministro.

Johnson irrita parlamentares de vários partidos

Johnson é um dos principais eurocéticos do Partido Conservador e foi um dos líderes da campanha pelo Brexit em 2016. Durante a crise que levou à renúncia de sua antecessora, Theresa May, ele deu sinais de preferir uma ruptura radical com Bruxelas – embora publicamente nunca tenha dito claramente.

A manobra de Johnson provocou a ira de parlamentares da oposição e do próprio Partido Conservador, que o acusaram de autoritarismo. Na visão dos deputados, o primeiro-ministro está tentando tirar do Parlamento suas prerrogativas legislativas e democráticas.

“É um ultraje constitucional”, afirmou o presidente da Câmara dos Comuns, John Bercow, que no passado demonstrou poder ao bloquear algumas decisões de May. “É óbvio que o propósito desta suspensão seria impedir que o Parlamento debata sobre o Brexit e cumpra seu dever de definir o rumo do país.”

Johnson negou as acusações de que estaria forçando um Brexit sem acordo. Segundo ele, o objetivo da medida é preparar sua agenda legislativa, “financiar o sistema de saúde” e “combater a criminalidade”. “Haverá tempo o suficiente para debater o Brexit”, afirmou.

Exceto alguns conservadores e eurocéticos radicais, ninguém acreditou na justificativa do premiê. O líder do Partido Trabalhista, Jeremy Corbyn, propôs apresentar uma moção de censura contra Johnson assim que os deputados voltarem do recesso, na semana que vem. Se conseguir, ele assumiria um governo temporário e convocaria novas eleições.

Para o analista de risco Dean Turner, do UBS Wealth Management, o risco de um Brexit sem acordo é cada vez maior. “Na prática, a suspensão do Parlamento dá menos tempo ao Parlamento de vetar um Brexit sem acordo. Eles (deputados) terão de agir com muita rapidez e de modo decisivo, o que não vem ocorrendo.”

Decisão preocupa Bruxelas e Trump defende Johnson

EUA e UE viram a decisão de maneira oposta. Guy Verhofstadt, coordenador do Parlamento Europeu nas negociações do Brexit, criticou a medida. “Tomar o controle nunca pareceu tão sinistro. Como parlamentar, minha solidariedade com aqueles que lutam para terem suas vozes ouvidas. Suprimir o debate não ajuda a proporcionar um bom relacionamento entre a UE e o Reino Unido”, disse.

“O Brexit sem acordo está vindo e chegará acompanhado de um Brexit sem debate”, disse a deputada Nathalie Louseau, aliada do presidente francês, Emmanuel Macron. “Que doença atinge a democracia britânica para temer um debate tão importante quanto este?”

Já o presidente americano, Donald Trump, defendeu o premiê. “Será muito difícil para os trabalhistas conseguirem uma moção de desconfiança contra Johnson. Ele é o que o Reino Unido estava procurando e fará um grande trabalho”, afirmou Trump.

Poucas horas depois de Johnson anunciar o recesso, uma petição contra a manobra recolheu 1 milhão de assinaturas – bem mais do que o número mínimo de 100 mil assinaturas exigido para que a questão seja debatida na Câmara dos Comuns. / AFP e WASHINGTON POST

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