Raiva, recriminações e destruição em Gênova

Janelas estilhaçadas, cilindros de gás lacrimogêneo e paralelepípedos quebrados estavam espalhados neste domingo pela cidade portuária de Gênova e as ruas estavam finalmente tranqüilas após dois dias de conturbados protestos antiglobalização que resultaram em uma morte e deixaram mais de 500 pessoas feridas. Quase 180 manifestantes foram presos em batidas policiais que prosseguiram até as primeiras horas deste domingo. Alguns dos detidos foram indiciados e as acusações deverão ser investigadas mesmo enquanto eles continuam internados nos hospitais da região devido aos ferimentos sofridos nas batalhas de rua em torno do local onde os líderes dos países mais industrializados do mundo estavam reunidos. Em quase dois anos de protestos antiglobalização ao redor do mundo, este foi de longe o mais intenso e o primeiro a resultar em morte, quando, na sexta-feira, um manifestante de 23 anos foi assassinado com um tiro na cabeça pelas forças paramilitares italianas. Mais de 100.000 pessoas foram às ruas para pressionar os líderes em causas sociais, econômicas e ambientais. Os jovens qualificados como anarquistas, que entraram em choque com a polícia com pedras e bombas incendiárias, constituíam talvez poucos milhares dos manifestantes. Os participantes das demonstrações condenaram a forma como a polícia italiana lidou com os incidentes e a culpou pelas lesões físicas. Dezenas de milhares de manifestantes embarcaram em um êxodo em massa antes mesmo do fim da cúpula em trens fretados ou em carros e ônibus. Nas ruas por onde passaram os manifestantes, as janelas das lojas foram quebradas - principalmente bancos e concessionárias de veículos - e os carros foram incendiados. "Os manifestantes destruíram a cidade deliberadamente", disse o professor universitário Antonio Chirico, que mora perto do local onde ocorreram as manifestações. "Foi um erro escolher Gênova para sediar esta cúpula, mas percebemos isso tarde demais." A polícia deteve 85 pessoas durante os dois dias de protestos e prendeu mais 93 na manhã de hoje, quando invadiu um galpão escolar utilizado como base pelos manifestantes. Sessenta e um dos detidos foram levados a hospitais. Os manifestantes contaram que dezenas deles foram espancados durante a ofensiva policial. De acordo com as forças de segurança, eles teriam sido internados por ferimentos sofridos durante confrontos anteriores. Todos os detidos neste domingo foram acusados de porte de bombas incendiárias e associação criminosa para cometer atos de vandalismo, informou a polícia. As autoridades acusam os detidos de instigarem a violência. Os manifestantes disseram que a polícia apreendeu documentos, arquivos de computador e filmagens contendo cenas das manifestações. Roberto Sgalla, porta-voz policial, nega que isto tenha ocorrido. O papa João Paulo II disse hoje que sentiu "dor e tristeza pela hostilidade" durante a reunião do G-8. "A violência não é o caminho para encontrar uma solução justa para os atuais problemas", disse o pontífice, que amanhã se reunirá com o presidente dos Estados Unidos, George W. Bush.

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