Mauro Pimentel/AFP
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Moisés Naím
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Raiz comum de AMLO e Bolso

Oferecer-se como salvador do país é muito mais atraente do que falar em instituições

Moisés Naím*, O Estado de S.Paulo

15 Outubro 2018 | 05h00

Um já chegou ao poder e o outro parece que está para chegar. Andrés Manuel López Obrador (AMLO) será o próximo presidente do México e Jair Bolsonaro (Bolso) pode ser o do Brasil. O sucesso político desses dois líderes nos diz muito do mundo de hoje.

Suas diferenças são profundas e suas semelhanças, reveladoras. As origens, carreiras políticas, ideologias, estilos e propostas são radicalmente opostas. Obrador é de esquerda e Bolsonaro, de direita. O mexicano antagoniza os empresários, enquanto o brasileiro promete uma política econômica liberal. Bolsonaro também já declarou uma guerra sem trégua aos criminosos, enquanto López Obrador fala de uma anistia. Bolsonaro gosta dos militares e Obrador, dos sindicalistas. 

Os meios de comunicação costumam caracterizar Bolsonaro como homofóbico, misógino, sexista e racista. Naturalmente, ele é contra o aborto e o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Já AMLO evita marcar posição sobre esses temas e insiste que está aberto a todas as ideias e, para decidir, “consultará o povo”. 

Bolsonaro admira Donald Trump e detesta Hugo Chávez, enquanto López Obrador é cauteloso em sua relação com Trump, que só ofende os mexicanos. Com relação à Venezuela, o presidente eleito do México tem procurado não manifestar simpatia por Chávez e sua revolução bolivariana, coisa que não fazem alguns de seus colaboradores, conhecidos pela solidariedade com o regime venezuelano.

Em uma de suas primeiras declarações, Marcelo Ebrard, futuro ministro do Exterior de López Obrador, anunciou que para seu governo a crise da Venezuela é assunto interno desse país e, por isso, não intervirá em sua política doméstica. Já Bolsonaro ataca seu adversário Fernando Haddad afirmando que, se este chegar à presidência, suas políticas desencadeariam uma crise parecida com a da Venezuela. O general Hamilton Mourão, que será o vice-presidente em caso de vitória de Bolsonaro, tem dito que eles não reconhecerão o governo de Nicolás Maduro e apoiam uma mudança de regime na Venezuela.

As semelhanças entre e AMLO e Bolso são tão interessantes quanto suas diferenças. Ambos caminham ao poder graças a tendências globais que estão rompendo com a política e os políticos tradicionais em toda parte. 

Os dois se apresentaram aos eleitores como outsiders, candidatos marginalizados pelas cúpulas de sempre. Sua imagem e suas campanhas têm como base o impiedoso ataque a um sistema com o qual, segundo eles, nada têm a ver. Mas isso não é verdade. Ambos são políticos de longa trajetória. 

Obrador militou desde muito jovem no hegemônico Partido da Revolução Institucional (PRI), organização na qual ocupou importantes cargos. Durante cinco anos, governou a populosa capital do México e foi candidato presidencial nas últimas três eleições. Bolsonaro, por seu lado, é deputado há quase três décadas. 

Mas o fato de ambos se apresentarem como candidatos “antissistema” não tem nada de particular. É o que se precisa fazer hoje para se ganhar eleições. É uma tendência mundial. Quem reina é a antipolítica, o repúdio popular a todos os líderes e organizações políticas que têm tido poder e responsabilidades de governo. Não é surpresa, então, que os políticos estejam se disfarçando de “novos” e de pessoas sem nenhuma culpa pelos males dos quais os eleitores estão fartos e cujo mantra, já universal, é “fora com todos”.

Sob essa perspectiva, AMLO e Bolso são candidatos “normais”. Lamentavelmente, nestes tempos também se tornou normal ganharem eleições candidatos que demonstram uma profunda antipatia por práticas e instituições que limitam o poder do presidente. Limitar a independência do Congresso, encher o Poder Judiciário de juízes “amigos”, atacar os meios de comunicação críticos ao governo e criar fontes alternativas de comunicação afinadas com o presidente são, tristemente, parte do menu político que vemos da Hungria à Tailândia, dos Estados Unidos à Turquia. Tanto Bolso quanto AMLO têm agido e dito coisas que revelam que, também nisso, são políticos normais e atuais. 

Essa guerra mundial que procura enfraquecer os pesos e contrapesos que limitam o poder presidencial se beneficia muito com a profunda desilusão que os eleitores vêm demonstrando com a democracia. Mais da metade dos brasileiros afirma que aceitaria um governo não democrático se esse “resolvesse os problemas”. A mesma atitude se encontra no México. 

A procura pelo proverbial “homem forte” que seja “novo”, lute contra a corrupção e o crime e traga tranquilidade a sociedades traumatizadas por terríveis níveis de violência domina a preferência dos eleitores no Brasil e no México. Oferecer-se como o Messias salvador do país é muito mais atraente do que falar em instituições que limitem o poder presidencial e protejam o cidadão, independentemente de quem seja o presidente. Bolso e AMLO entendem bem isso. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

*É COLUNISTA

 

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