Raízes da violência no Iraque

Mais do que o sectarismo islâmico, disputa política está no fundo da insurgência iraquiana

Dan Murphy, Christian Science Monitor/O Estado de S.Paulo

22 de janeiro de 2014 | 02h04

Os últimos soldados americanos deixaram o Iraque em 2011, "bem-sucedidos na missão de dar aos iraquianos a chance de um futuro promissor", disse o presidente dos EUA, Barack Obama, na época. No mês passado, esse futuro ficou obscuro, com a insurgência árabe sunita inflamando-se de novo, principalmente na Província de Anbar. O que aconteceu?

A guerra civil no Iraque realmente acabou? Não. No dia em que os últimos soldados dos EUA deixaram o Iraque, o primeiro-ministro Nouri al-Maliki, do Partido Dawa, xiita, intensificou a pressão sobre parlamentares sunitas, mostrando sua intenção de subjugar os inimigos políticos. Ele convocou um voto de desconfiança contra o vice-premiê Saleh al-Mutlaq e expediu um mandado de prisão contra o vice-presidente Tariq al-Hasemi, máxima autoridade sunita do país.

Nos anos seguintes, seu governo desfez todo o progresso no sentido da reconciliação política alcançado antes da partida dos EUA. Embora o Iraque esteja muito menos violento do que era, em 2012 o número de mortes saltou 17%. No ano passado, mais do que dobrou, passando de 8 mil.

Qual é o problema? Reflexos da guerra civil na Síria são parte importante do atual cenário. O Estado Islâmico do Iraque (antes chamado Al-Qaeda do Iraque) uniu-se aos jihadistas sírios para formar o Estado Islâmico do Iraque e do Levante (Isil). O trânsito de armas e combatentes nas fronteiras é contínuo, particularmente através das províncias de Anbar e Nineveh.

Mas a razão mais profunda e mais importante da violência é a política iraquiana. Nos últimos dois anos, Malik constantemente perseguiu políticos sunitas e não cumpriu promessas de empregos e recursos feitas para combatentes sunitas que participaram da luta contra a insurgência em 2007.

A Al-Qaeda assumiu o controle de Anbar? Não. A primeira questão é definir o que é a Al-Qaeda. Desde o momento em que um grupo que se identificou como Al-Qaeda do Iraque foi criado no país, muita confusão tem sido feita sobre a relação entre jihadistas sunitas que lutam no país e a Al-Qaeda original, de Osama bin Laden.

Apesar de os dois grupos manterem vínculos, os jihadistas no Iraque sempre combateram de modo autônomo. Muitos estavam mais concentrados em alvos nacionais e não tinham a visão pan-islâmica da Al-Qaeda.

Mas membros da Al-Qaeda tomaram o controle de Faluja e Ramadi? Não exatamente. Embora o Estado Islâmico do Iraque esteja muito ativo, levando a polícia iraquiana a abandonar seus postos em ambas as cidades, "controlar" a área é outra coisa.

Diante de tudo isso, há alguma esperança? Sim. A Al-Qaeda é a maior inimiga. Durante a guerra dos EUA no Iraque, o grupo rapidamente deixou de ser bem-vindo para muitas confederações tribais locais e para a população em geral. Açoites e execuções sumárias de cidadãos acusados de violar a lei islâmica, como também o menosprezo por práticas e autoridades locais, levaram àquele afastamento. O grupo também ameaçou interesses econômicos de figuras poderosas na região que há muito tempo controlavam rotas de contrabando lucrativas.

Essa mesma dinâmica existe hoje. Anbar odeia e teme o governo central, dominado por xiitas, que trata a região e seus líderes como lixo. Mas muitos dirigentes tribais também não gostam dos jihadistas.

Então é o ódio entre sunitas e xiitas que está provocando isso? A divisão entre sunitas e xiitas no Iraque interfere muito na política nacional. Mas não é tudo. Os casamentos entre pessoas de seitas diferentes são comuns, muitos sunitas e xiitas se consideram genuinamente "iraquianos" e muitas das maiores confederações tribais abrangem sunitas e xiitas. A divisão é provocada por poder e dinheiro, não se trata de uma disputa sobre a natureza do Islã. O Partido Baath, de Saddam Hussein, era aberto a xiitas e a sunitas. Muitos xiitas viraram membros para obter vantagens sociais e econômicas.

Não quer dizer que o ódio sectário não exista ou não seja um componente importante dos dias mais sombrios da guerra civil. Os esquadrões da morte percorreram o país em 2006 e 2007 torturando e matando pessoas simplesmente por suas crenças religiosas. Hoje, grande parte do ódio tem razões políticas. A perseguição de sunitas por Maliki é uma razão fundamental pela qual o Isil hoje tem esta abertura no Iraque. O problema pode ser resolvido com a adoção de medidas políticas corretas. E isso cabe a Maliki.

TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

*Dan Murphy é jornalista.

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