Raízes do crime no México

Venda de armas e política de drogas dos EUA também são culpadas pela tragédia mexicana

CLAUDIO, LOMNITZ, GLOBAL VIEWPOINT, O Estado de S.Paulo

23 Novembro 2014 | 02h02

Há uma tendência equivocada de atribuir a corrupção mexicana a práticas que remontam à conquista espanhola. Trata-se de uma teoria do pecado original que vê os traços da criação de uma "cultura da corrupção" na distância existente entre a autoridade real e os governantes locais, que considera a famosa frase de Hernán Cortés ("Obedeço, mas não cumpro") um sinal icônico da cultura mexicana como a suposta compulsão de George Washington a confessar que ele derrubara uma cerejeira.

No entanto, atribuir os atuais problemas do México a essa história ultrapassada é algo que não resiste à análise. A corrupção que grassava na Nova Espanha colonial - a compra e venda de cargos políticos, a obtenção de favores de amigos, o contrabando - assemelhava-se ao que existia na Itália, no Chile ou mesmo na Grã-Bretanha.

Entretanto, nem Itália, nem Chile, nem Grã-Bretanha têm os problemas do México. Alguma coisa ocorreu desde a conquista espanhola. Mas, infelizmente, essa história carece da simplicidade cativante das mitologias sobre as cerejeiras. Na realidade, compreender o atual atoleiro de impunidade do México exige o exame da complexa história da debilidade do Estado mexicano, quando comparada à dos EUA. Portanto, prepare-se, porque não há outra maneira de seguir em frente.

1 - Estado fraco. Do ponto de vista econômico, o México ficou muito atrasado em relação aos EUA entre 1820 e 1880. Sua destrutiva guerra de independência arrasou a economia da antiga colônia que tinha como base a mineração e a agricultura. O comércio interno era limitado pela escassez de rios navegáveis. Além disso, a maior parte da população do México sempre vivera nas montanhas, encarecendo o transporte. Na verdade, a construção de ferrovias era uma exigência absoluta para o desenvolvimento, mas a guerra e os levantes adiaram esses investimentos durante décadas.

Nos anos 1820 e 1830, o México se lançou em pequenos, mas dispendiosos conflitos contra Espanha, França e Texas. Em 1847, em consequência da guerra contra o México, os EUA se apoderaram de mais da metade do seu território, derrota que foi seguida por uma guerra civil à qual se somou uma invasão francesa. O conflito com os indígenas comanches e maias durou pela maior parte do século e esvaziou os cofres dos governos locais.

Com a instabilidade, a construção da primeira ferrovia que uniu o Porto de Veracruz à Cidade do México levou 40 anos para se concluir. Sem nenhum crescimento econômico ao longo dessas décadas, a nova república virou um Estado fraco - e Estados fracos são terreno propício para a corrupção.

O pagamento de propinas era indispensável para conseguir que alguma coisa se concluísse e, ao mesmo tempo, para a obstrução da Justiça. O banditismo mexicano tornou-se lendário e só foi extinguido às custas de uma ditadura militar, mas ressurgiu com a vingança durante a Revolução Mexicana de 1910.

São essas as origens da corrupção e da impunidade no século 19 e seus efeitos duradouros estenderam-se até os dias de hoje com a criação de uma discrepância fundamental entre a atuação do Estado no México e nos EUA. Além disso, ocorreu recentemente uma série de fatores relevantes.

2 - Economia informal. Primeiro, as dimensões da economia informal do México. Dependendo do parâmetro, entre um terço e dois terços da população hoje depende de práticas econômicas toleradas, embora proibidas por lei. Evidentemente, elas implicam, em geral, em infrações menores: o assentamento em terras devolutas nas periferias urbanas, por exemplo, ou a venda de bens por ambulantes. As economias informais só podem ser regulamentadas por meio de uma pequena corrupção - pela polícia, por exemplo, que é subornada para fingir que não vê enquanto controla o volume e o fluxo das operações.

3 - Nenhuma responsabilização sem taxação. Um segundo fator corrente diz respeito à base tributária do México. As receitas do governo dependem de maneira desproporcional da petrolífera estatal Pemex - que contribui com mais de 30% do orçamento federal. O setor petrolífero permite que o governo tenha uma arrecadação de impostos baixa. Em 2012, o México obteve menos de 10% do PIB de sua base tributária, enquanto suas receitas totais corresponderam a apenas 18% do PIB - incluindo a receita da Pemex - em comparação com 26% do PIB para os EUA e 32% para o Brasil. Essa limitada base tributária prejudica a responsabilização.

4 - Políticas de controle do tráfico de drogas e de armas. Por fim, há um fator particularmente deletério: o atoleiro de impunidade do México foi profundamente afetado pelas políticas de combate à droga e ao tráfico de armas dos EUA. A fronteira entre os dois países registra o tráfico mais intenso do mundo. Ele floresce em razão das diferenças entre as duas nações.

Se a mão de obra é mais barata de um lado, os trabalhadores cruzam a fronteira. O mesmo ocorre com todas as outras mercadorias. As divergências legais e do custo dos serviços também favorecem o tráfico. Se as leis ambientais são comparativamente permissivas de um lado, isso produzirá tráfico pela fronteira. Se os remédios são mais baratos, isso significa tráfico.

Os EUA decidiram criminalizar a economia que atende ao seu enorme apetite por drogas. Como o México tem instituições corruptas e fracas, a tentação de terceirizar as atividades ilegais no México é natural - e perfeitamente previsível. Além disso, os EUA permitem a venda de armas, que é legal e minimamente regulamentada em seu território, enquanto o México não a permite. Isto também estimula o tráfico.

Os resultados dessa combinação são letais e o México paga um custo desproporcional pelos hábitos americanos de uso de drogas e de armas, a ponto de chegar a 100 mil o número de mortos e a 22 mil o de desaparecidos desde o início da guerra às drogas declarada pelo ex-presidente Felipe Calderón, em 2006, sem mencionar a atual corrosão da legitimidade do governo.

Ciudad Juárez proporciona um vislumbre da distribuição geográfica dos custos sociais da política americana em relação às drogas. Há quatro anos, a taxa de assassinatos em na cidade era mais elevada do que a de Bagdá. Ao mesmo tempo, do outro lado, El Paso era considerada a cidade mais segura, em relação a centros urbanos do mesmo tamanho nos EUA. Onde as gangues de Ciudad Juárez compravam suas armas? Em El Paso. Onde acabavam as drogas que passavam por Ciudad Juárez? Em El Paso.

Há uma história sombria por trás dos atuais horrores da criminalidade e da impunidade no México com a qual apenas os mexicanos podem lidar. As políticas americanas nas questões das drogas e das armas, porém, também devem ser responsabilizadas. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

É PROFESSOR DE ANTROPOLOGIA DA

UNIVERSIDADE COLUMBIA

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