Rajoy aferra-se ao cargo em um país pouco afeito a renúncias

Embora envolvido em suspeitas de corrupção, o chefe de governo espanhol, Mariano Rajoy, parece longe de renunciar, já que dispõe de sólida maioria parlamentar num país com escassa tradição de renúncias e uma cidadania pouco reivindicativa. Na segunda-feira, depois de uma semana de revelações comprometedoras sobre a implicação de Rajoy no suposto caixa 2 de seu partido e no recebimento de dinheiro de forma ilegal, o líder conservador reafirmou o que tinha dito quando o escândalo eclodiu no princípio do ano: não vai renunciar, apesar das petições da oposição.

ANÁLISE: Daniel Bosque / France Presse, É JORNALISTA, ANÁLISE: Daniel Bosque / France Presse, É JORNALISTA, O Estado de S.Paulo

17 de julho de 2013 | 02h07

"Vou cumprir o mandato que os espanhóis me deram", disse Rajoy, enquanto o ex-tesoureiro de seu partido Luis Bárcenas confirmava perante um juiz o caixa 2 do Partido Popular (PP) e a entrega de 25 mil em dinheiro vivo ao chefe do governo em 2010.

Aumenta o mal-estar entre os espanhóis, atormentados por cinco anos de crise e um desemprego galopante, mas, por outro lado, eles dão como certa a sentença de que "nesse país, ninguém renuncia".

"Na Espanha, não há tradição de renúncia, entendendo-se a renúncia como uma fraqueza política. Praticamente não há exemplos desde 1978, quando se iniciou a democracia atual", explica Ferran Requejo, professor de ciências políticas na Universidade Pompeu Fabra, de Barcelona. "Isso resulta simplesmente da falta de tradição democrática do Estado espanhol. Faz poucos anos que a Espanha se tornou democrática." Para Fernando Vallespin, professor de ciências políticas na Universidade Autônoma de Madri (UAM), essa mentalidade corresponde também à "cultura católica". "Nas culturas protestantes, a responsabilidade é assumida com maior naturalidade. Na Espanha, reconhecer a responsabilidade é reconhecer a culpa, que são coisas diferentes", explica.

Numerosos escândalos recentes tiveram pouco efeito nas urnas. "Nas últimas eleições locais, 70% dos candidatos indiciados pela Justiça foram eleitos", revela Jesús Lizcano, presidente da Transparência Internacional Espanha e também professor da UAM.

"Isso dá uma ideia da tolerância, do desinteresse que nós cidadãos espanhóis tínhamos pelo tema da corrupção", afirma. "Isso está se transformando na razão de todos os escândalos de corrupção. É a única coisa boa de todas essas crises de corrupção", afirma Requejo. No entanto, essa mudança não conseguiu transformar o profundo mal-estar dos cidadãos em manifestações de massa nas ruas.

Com essa relativa paz social, uma confortável maioria absoluta na Câmara e poucas vozes críticas em seu partido, Rajoy aferrou-se ao cargo e à necessidade de "estabilidade política" no país. Por isso, Requejo aponta como cenário mais provável" que Rajoy não renunciará e tentará resistir "até o último momento".

Tanto a imprensa como os demais partidos políticos exigiram maiores explicações de Rajoy, que respondeu somente duas perguntas sobre o caso na segunda-feira. "Em qualquer democracia da União Europeia, essa crise ou uma crise dessa gravidade seria discutida e resolvida aqui, na sede da soberania popular", lamentou o líder socialista Alfredo Pérez Rubalcaba.

Depois de pedir em numerosas ocasiões o comparecimento do chefe de governo ao Congresso, pedidos bloqueados pelo PP e sua maioria absoluta, Rubalcaba ameaçou com uma moção de censura se Rajoy não der explicações.

No entanto, parece pouco provável que a moção tenha êxito com uma maioria conservadora na Câmara e algumas estruturas rígidas nos partidos que tornam muito difícil a rebelião de parte dos deputados.

Vallespín vê nesse escândalo o início de uma nova etapa política na Espanha, razão pela qual não descarta a demissão do presidente no médio prazo. "A política espanhola precisa de uma catarse para romper com essa crise e com o desinteresse político. É preciso renovar o consenso constitucional e isso pode ser o sinal de partida dessa renovação." / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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