Gordon Welters/The New York Times
Gordon Welters/The New York Times

Ramo secreto do EI montou rede de assassinos global

Alemão que se filiou ao grupo revela o trabalho de uma unidade cujos ‘oficiais’ têm poder de planejar ataques ao redor do mundo

Rukmini Callimachi* / NYT, O Estado de S.Paulo

06 Agosto 2016 | 22h00

BREMEN, ALEMANHA - Acreditando que respondia a um chamado divino, Harry Sarfo deixou no ano passado sua casa na cidade operária de Bremen, na Alemanha, e dirigiu por quatro dias para chegar ao território controlado pelo Estado Islâmico na Síria. 

Mal tinha se instalado, membros do serviço secreto do EI, mascarados, chegaram para informar-lhe, e a seu amigo alemão, que a organização não precisava mais de europeus na Síria. O que precisavam mesmo era que voltassem para casa e ajudassem a deslanchar os planos da organização de espalhar o terrorismo pelo mundo.

“Disseram-nos que o Estado Islâmico já tinha inúmeras pessoas vivendo na Europa, aguardando ordens para atacar europeus”, afirmou Sarfo em entrevista a The New York Times. “E isso foi antes dos ataques em Bruxelas e Paris.”

A entrevista foi feita em inglês, na prisão de segurança máxima que fica perto de Bremen. Os mascarados explicaram que, embora o grupo estivesse bem estabelecido em alguns países europeus, precisava de mais atacantes na Alemanha e Grã-Bretanha.

“Perguntaram-nos se não nos importaríamos de voltar para a Alemanha, pois era ali que precisavam de nós no momento”, disse Sarfo. “Repetiam que queriam ações simultâneas – ondas de ataque desfechadas ao mesmo tempo na Grã-Bretanha, Alemanha e França.”

Os operadores mascarados pertenciam a uma unidade de inteligência do EI conhecida em árabe como Emni. Trata-se de uma combinação de força policial interna com um ramo operacional externo, dedicada a exportar o terror para o exterior, como revelam milhares de documentos dos serviços de inteligência francês, belga, alemão e austríaco. 

Os ataques de 13 de novembro do EI em Paris chamaram a atenção do mundo para a rede de terrorismo do grupo no exterior. O EI começou a enviar combatentes para fora há dois anos. 

O relato de Sarfo, mais os de outros recrutas capturados, descortinaram uma máquina capaz de promover a violência além-fronteiras.

Eles descreveram um serviço secreto que atua em vários níveis, sob o comando de Abu Muhammad al-Adnani. Trata-se do mais graduado operador, porta-voz e chefe de propaganda do EI na Síria. Abaixo dele está um grupo de lugar-tenentes com poder de ordenar ataques em diferentes regiões do mundo. O grupo mantém um “serviço secreto para assuntos europeus”, um para “assuntos asiáticos” e outro para “assuntos árabes”, segundo Sarfo. 

Reforçando a ideia de que o Emni é parte fundamental do núcleo de operações do Estado Islâmico, as entrevistas e documentos indicam que a unidade tem carta branca para recrutar e remanejar operadores de todos os ramos do EI – recém-chegados, combatentes veteranos, forças especiais e unidades de comandos de elite.

Os operadores são selecionados por nacionalidade e agrupados, conforme a língua, em unidades pequenas e discretas cujos membros às vezes só se encontram na véspera de partir para o exterior. 

Sob coordenação de Adnani, o planejamento das ações terroristas ocorre paralelamente às extensivas operações de propaganda. Essa estratégia inclui, segundo Sarfo, encontros mensais nos quais Adnani escolhe os vídeos mais aterrorizantes a a serem divulgados. 

Funcionários europeus estão estressados por uma sequência de ataques desfechados por autores aparentemente não conectados entre si, mas dizendo-se ligados ao Estado Islâmico. Sarfo sugere que há mais ligações entre os atacantes que as já conhecidas das autoridades.

Ele disse ter sido informado de que operadores secretos na Europa estão usando novos convertidos como “agentes limpos”, que ajudam a contatar pessoas interessadas em participar de ataques ao lado de operadores que as instruem em temas que vão de como fazer um colete suicida a como creditar a violência ao Estado Islâmico. 

Veja abaixo: Por que a França virou alvo de ataques?

O grupo mandou de volta “centenas de operadores” para a União Europeia, que se somarão às “centenas existentes só na Turquia”, segundo dois altos funcionários americanos – um, agente de inteligência, outro, funcionário da defesa, que falaram na condição de anonimato. 

Sarfo, que deixou recentemente a solitária em sua prisão alemã por não ser mais considerado perigoso, concorda com essas informações. “Muitos voltaram”, confirma ele. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

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