Ramos-Horta deu entrevista ao 'Estado' antes de atentado

'Minha frustração é não fazer milagres', disse o presidente, baleado nesta segunda, sobre a pobreza no Timor

Denise Chrispim Marin e Rui Nogueira, de O Estado de S.Paulo,

11 de fevereiro de 2008 | 21h24

Vítima de um atentado nesta segunda-feira, 11, o presidente do Timor Leste, José Ramos-Horta, concedeu a seguinte entrevista exclusiva ao Estado há dez dias, quando esteve no Brasil:  Veja TambémPresidente é submetido a nova cirurgiaTimor decreta emergência após ataqueLula repudia atentado contra presidente Ramos-Horta é figura central há 30 anosBrasileiros são impedidos de deixar o TimorPara Gusmão, situação está controlada Ex-premiê do Timor culpa ONU por atentadosPresidente do Timor Leste é baleado em casaMiséria e violência: combustíveis da crise  A nomeação de Xanana Gusmão como primeiro-ministro provocou uma reação violenta no país. Como contornar isso? Muitos líderes da Fretilin (Frente Revolucionária por um Timor Leste Independente) já morreram. No entanto, seus filhos e amigos acham que o partido deve governar ad infinitum. Em 2001, a Fretilin teve 57% dos votos. Em 2006, 29%. Formei uma coalizão com quatro partidos para governar e esses jovens sentiram-se traídos. Mas a violência não foi tanta. A nomeação de Xanana foi absorvida pelo país? Sim, viajei por vários locais onde houve violência. No mais problemático, só uma pessoa levantou a questão política. As outras falaram da necessidade de estradas e empregos.  O Timor criou um fundo com os royalties do petróleo. Como esses recursos são aplicados? Esse fundo tem cerca de US$ 2 bilhões e é investido em bônus do Tesouro americano. O investimento é seguro, mas os juros são muito baixos. Com a inflação americana e a desvalorização do dólar, já perdemos cerca de US$ 500 milhões em dois anos. O primeiro-ministro já ordenou um estudo. Mas é muito tarde. Como será o Timor em 20 anos? O modelo viável para o Timor Leste é Dubai (Emirados Árabes). Além de recursos minerais, petróleo e gás, temos mais vantagens que Dubai, pois nosso território é maior e podemos ser auto-suficientes em agricultura. Timor pode vir a ser um centro financeiro para o Sudeste da Ásia. Como o sr. lidará com as dificuldades orçamentárias de sua gestão? Como o senhor pretende lidar com a dificuldade do governo timorense executar seu orçamento anual? Entre 2000 e 2001, consultores internacionais super-inteligentes nos aconselharam a adotar um sistema que só seria aplicável na Noruega. Isso tornou difícil para os ministros executar o orçamento com celeridade. Com as mudanças que fizemos e a liderança forte do primeiro-ministro, acredito que seja possível uma execução mais rápida. Qual o principal problema do Timor? O mais grave e imoral é a pobreza. O orçamento deste ano prevê o pagamento de uma soma única aos veteranos da luta pela independência, de US$ 9 mil a US$ 10 mil. Cada veterano receberá US$ 100 ao mês até morrer. Vamos eliminar os impostos, dar apoio à agricultura e fazer obras. Mas isso leva tempo. Minha frustração é não ser Nossa Senhora de Fátima, para fazer milagres.

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