Ramon Espinosa/AP
Ramon Espinosa/AP

Ranger de dentes no balanço do perde-ganha

Para conservadores cubano-americanos do sul da Flórida,concessões de Obama ao regime da ilha foram excessivas

Mimi Whitefield, The Miami Herald

19 de julho de 2015 | 03h00

Enquanto os Estados Unidos e Cuba se preparam para reatar as relações diplomáticas amanhã, depois de 54 anos de rompimento, continua intenso o debate sobre quem fez o melhor negócio nessa histórica reaproximação, principalmente no sul da Florida, onde esse debate assume a forma de uma luta livre.

Alguns veem aspectos positivos para ambos os lados e uma vantagem maior para os Estados Unidos, ou seja, não se trata de saber quem obteve maiores benefícios nas negociações para pôr fim a mais de meio século de hostilidades. Outros, como o senador da Florida Marco Rubio, consideram que estão sendo feitas “concessões e mais concessões” ao governo cubano, que continua reprimindo os dissidentes e os ativistas de direitos humanos.

“Que diferença faz saber quem ganhou mais, principalmente quando não há um lado claramente perdedor ?”, questionou Helene Dudley, ex-voluntária do Peace Corps, que atualmente trabalha com um programa de microempréstimos. “Em ambos os países, as pessoas se beneficiaram com esse acordo em que todos deveriam ganhar, e é impossível avaliar suas consequências. Deveríamos abandonar nossa mesquinhez em relação a Cuba. Cada lado tem muito que lamentar pelas ações cometidas nos últimos 100 anos. Está na hora de ir em frente.”

No entanto, para a delegação cubano-americana do Congresso, os EUA ficaram com a parte pior nas novas relações que se iniciam oficialmente amanhã, com a abertura das respectivas embaixadas em Havana e Washington. “As chamadas negociações do governo de Barack Obama não resultaram em nada, foram um mero presente de Natal no mês de julho para os Castros”, disse a deputada republicana do sul da Florida, Ileana Ros-Lehtinen. 

“Sem receber nada em troca do regime comunista, os EUA conseguiram legitimar os irmãos Castro com uma embaixada americana em Havana, concederam aos cubanos o acesso a instituições financeiras nos EUA, promoveram um aumento do turismo americano à ilha e retiraram Cuba da lista dos países patrocinadores do terrorismo”.

“O presidente Obama continua apaziguando os opressores (do povo cubano)”, afirmou o senador republicano da Flórida Mario Díaz-Balart. “O povo cubano implora por solidariedade em sua luta pela liberdade, não pela colaboração com os que o colocam na cadeia. Seria bom se tivéssemos um presidente que sabe a diferença.”

Uma pesquisa da Bendixen & Amandi, com base em 1.200 entrevistas com cidadãos cubanos de toda a ilha, concluiu que 97% acharam uma coisa boa o restabelecimento das relações diplomáticas com os EUA. No entanto, Díaz-Balart observou que o governo cubano prendeu mais de 2 mil dissidentes e ativistas, embora se tratasse, na maioria, de detenções de curto prazo, desde 17 de dezembro, quando o presidente Obama e o líder cubano Raúl Castro anunciaram que as duas nações haviam conseguido um avanço diplomático depois de 18 meses de negociações secretas.

Rubio, que pertence a um grupo numeroso de candidatos à indicação presidencial republicana, disse que pretende bloquear a confirmação de um embaixador americano a Cuba até que sejam solucionadas questões como o retorno de americanos fugitivos que moram em Cuba, as reivindicações de cidadãos americanos cujas propriedades foram confiscadas na ilha, a liberdade política para o povo cubano e a retirada de todas as restrições aos diplomatas americanos em Cuba.

Uma cláusula do projeto de lei referente a verbas exclusivas do Departamento de Estado, que proíbe o repasse de recursos a uma embaixada ou a uma representação diplomática além do que foi autorizado antes do anúncio de Obama, em dezembro, ainda aguarda um debate na Câmara. Aliás, durante as negociações que se estenderam de janeiro a 1.º de julho, quando ambas as partes anunciaram um acordo sobre a abertura das embaixadas, Cuba tinha dois objetivos principais: sua retirada da lista dos EUA de países patrocinadores do terrorismo - designação que comporta sanções - e encontrar um banco que administrasse as contas das missões diplomáticas e de seus funcionários nos EUA. Com a perda de um primeiro banco, as missões tiveram de operar por mais de um ano com dinheiro vivo. 

Ao dar início às conversações, os principais objetivos dos EUA eram: fim das restrições de viagens à ilha para o pessoal da embaixada, acesso irrestrito aos cubanos que queiram visitar a embaixada, fim do limite de 51 americanos para o staff da embaixada e garantias de segurança para o envio de material para a embaixada.

Foi acertado o seguinte, informou uma fonte do Congresso: diplomatas de primeira classe de ambas as embaixadas podem viajar sem notificação prévia em visitas oficiais, enquanto outros funcionários da embaixada precisam apresentar a notificação de seus planos de viagem, mas não precisam mais esperar a aprovação; as autoridades cubanas que mantiveram um posto de controle no Escritório de Interesses Cubanos, não exigirão mais um registro prévio dos visitantes; ambas as partes terão permissão para aumentar o pessoal, mas não está claro se a atual representação americana poderá abrigar um número maior de funcionários; e os cubanos concordaram com o pedido dos EUA de garantias para o envio seguro de material.

“Estamos satisfeitos com as condições acertadas, incluindo o acesso a instalações diplomáticas, viagens de diplomatas e ao número de funcionários”, disse um funcionário de alto escalão do Departamento de Estado. “Esperamos que nossa embaixada em Havana possa operar como as outras embaixadas operam em ambientes com restrições. Poderemos nos reunir e trocar opiniões com uma variedade de vozes e pontos de vista no governo e fora dele.” 

Como parte da abertura, os EUA anunciaram ainda medidas que facilitarão as viagens de cidadãos americanos a Cuba, a realização de negócios e o intercâmbio com empresários privados e algumas entidades do governo cubano. Num gesto de boa vontade, Raúl Castro soltou 53 prisioneiros políticos, mas os críticos reclamam que há outros prisioneiros políticos nas prisões de Cuba.

Ao que tudo indica, os EUA conseguiram a maioria dos itens de sua lista. “Os EUA obtiveram algo muito importante, a abertura da embaixada”, disse Carlos Alzugaray, diplomata cubano aposentado, cujo último posto foi de embaixador na União Europeia. “Era algo que Cuba não queria. Uma embaixada americana em Cuba é um problema para nós. Devemos lembrar que se trata de uma relação assimétrica”, afirmou.

Cuba também aceitou o acordo, segundo ele, com o embargo vigorando em grande parte. Ao mesmo tempo, ambos os lados concordaram em continuar mantendo conversações separadas sobre questões como direitos humanos, migração e outras áreas. 

“Todo esse debate a respeito de quem saiu beneficiado me deixa confusa”, disse Vivian Mannerud, que dirige a Airlines Brokers, empresa que organiza viagens a Cuba. “O que Cuba pode dar para nós? Os cubanos não tiraram nada da gente. Eles não impuseram nenhuma sanção ao comércio e às viagens. Nós tomamos Guantánamo”, disse. “Eles tiraram coisas do povo cubano? Sim. Mas esta é outra história.”

No entanto, em razão da situação do povo cubano, Marta Hernández, administradora aposentada de uma escola de Miami, observou que os vencedores são obviamente os irmãos Castro e o governo cubano com o estabelecimento das novas relações.

Ela não concorda com o argumento de que o embargo foi a principal causa das dificuldades do povo da ilha. “O problema em Cuba não é o embargo americano, é o sistema.”

A subsecretária de Estado dos EUA para o Hemisfério Ocidental, Roberta Jacobson, que chefiou a equipe de negociadores americanos nas conversações, disse que a antiga política do isolacionismo prejudicou as relações americanas com o resto da região e a nova política foi bem recebida nas Américas como um todo.

Considerando os potenciais benefícios econômicos de ambos os lados, Bruce Lamberto, de North Miami Beach, disse que forçosamente haveria vantagens.

“Cuba conseguirá um forte desenvolvimento econômico em razão das empresas privadas que assinarem acordos de construção com Cuba. A ilha também se beneficiará com os milhões de turistas americanos que logo a visitarão”, afirmou. “Os EUA se beneficiarão permitindo que companhias americanas participem do desenvolvimento que anteriormente favoreciam outros países.”

As grandes áreas de disputa, como o embargo, as reivindicações de propriedades americanas, a base naval de Guantánamo, o retorno de criminosos presos e as exigências dos cubanos de dar fim à Radio e TV Martí, e de indenizações pelos danos econômicos e humanos causados pelos Estados Unidos - ainda aguardam uma solução.

Com a abertura das embaixadas, Raúl disse esta semana que começará a “longa e complexa” fase de normalização das relações entre os dois países. “Em curto prazo, com certeza, os cubanos conseguirão mais. A longo prazo, ainda não sabemos”, afirmou Andy Gómez, há muito tempo profundo conhecedor de Cuba. “O restabelecimento das relações diplomáticas é uma coisa e a reconciliação é outra diferente. E isso poderá levar um bom tempo”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA 

Mimi Whitefield é jornalista.

Tudo o que sabemos sobre:
Visão GlobalCubaEUA

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.