Haidar Hamdani/ AFP
Haidar Hamdani/ AFP

'Rap islâmico' causa euforia e polêmica no sul do Iraque

Embora una jovens islamitas para louvar religião, ala conservadora classifica músicas como 'perversão', 'pecado' e 'absurdo'

Redação, O Estado de S.Paulo

10 de maio de 2019 | 21h33

AL MIDHATIYA, IRAQUE - Um público exclusivamente masculino bate no peito em frente ao palco. Poderia ser uma cena típica do islamismo xiita, com seus longos cantos, mas nessa mesquita os cantos são de rap em homenagem ao imã Hussein. 

No Iraque, eles têm grupos para se adaptar ao rap moderno, os "latmiyates". Esses versos cantados narram a epopeia e o martírio dos imãs e outras figuras do islamismo xiita com o intuito de provocar interesse nos jovens. 

Embora movam multidões, esses grupos são duramente criticados por religiosos, que não suportam alterações na tradição xiita do sul do Iraque, rural e tribal. 

O "Rap islâmico" é uma "perversão" que "não tem nada a ver com o Islã", disse o imã Latif Al Amidi, usando um turbante preto dos descendentes de Maomé. "São absurdos", ele termina. Para ele, é proibido misturar religião e música ou percussão ocidental. "São pecados", ele insiste.  

O rap "Islâmico Husseini" refere-se ao Imã Hussein, neto do profeta e uma das figuras fundadoras do xiismo, e foi criado para levar os jovens para o caminho certo, assegura o cantor Karrar Al Bederi. 

"Os jovens abandonaram a religião e a moral devido aos homens clássicos da religião, que são retrógrados", afirma o jovem iraquiano. 

Portanto, "a criminalidade, as drogas e o ateísmo estão crescendo" no Iraque nos últimos anos, insiste. Para freá-los, ele decidiu usar um estilo importado do "invasor" americano, o rap.  

"Nosso objetivo é educar os jovens, por isso tomamos o rap e o transformamos em um rap Islâmico Huseini", explicou à agência France Presse. "Ele serve como um vetor para educar e divulgar uma mensagem de paz e moderação."  

Ao ritmo de alto-falantes e sob bandeiras vermelhas, um adolescente vestido de preto encena no palco a epopeia dos "mártires", e o faz tão rápido que é difícil entendê-lo. Um grupo de dignitários com turbantes, entre eles o xeque Salem Al Janahi, testemunha a performance. 

Nem em Kerbala nem em Nayaf  

Esse proeminente clérigo de confissão xiita de Mahmud Al Sarji - uma personalidade controversa no Iraque, acusado de desviar as interpretações de outras autoridades xiitas - coincide com os jovens rappers. 

Os representantes religiosos inflexíveis "quando misturados com a corrupção e a política, fizeram os jovens fugirem", disse Al Janahi à AFP, em meio ao som alto do "rap Huseini". 

Alguns intérpretes de "latmiyates" tornaram-se autênticas estrelas na comunidade xiita, que representa dois terços da população. O "rap Huseini", no entanto, ainda não conseguiu entrar nas duas principais cidades sagradas do país.  

Oficialmente, as altas autoridades iraquianas xiitas não proibiram nem abordaram o tema, mas até agora esse rap não tem ressoado dentro dos muros dos mausoléus de Kerbala e Najaf, os dois maiores santuários xiitas ao sul de Bagdá.  

Os seguidores do "rap Huseini" têm de se contentar com algumas sessões públicas e, mais normalmente, com vídeos online, vistos dezenas de milhares de vezes.  

Em um vídeo gravado no meio de um campo com palmeiras (a árvore nacional iraquiana) à distância, um rapper com jeans e boné, clama: "Meu mestre não tem igual/ me ensinou a agir com respeito/ quero falar sobre a causa do nosso ímã".  

"Temos de abordar os jovens com as ferramentas que eles conhecem", diz Karrar al Bederi. /AFP 

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