Rapto de meninas ganha triste fama

Caso das estudantes sequestradas na Nigéria não é isolado e demorou a chamar a atenção da comunidade internacional para problema

Lauren Wolfe, Foreigh Policy, O Estado de S.Paulo

11 Maio 2014 | 02h18

NOVA YORK - Na semana passada, vários artigos questionavam por que razão a mídia ignorava o sequestro de mais de 200 meninas pelo grupo extremista islâmico Boko Haram, da Nigéria. Demorou uma ou duas semanas (mais do que o aceitável, na verdade, considerando o horror do crime), mas o caso acabou chamando mais a atenção do que qualquer outro episódio de jovens sequestradas em um conflito armado recente.

Mas a pergunta indignada exprime um desespero mais profundo: "Por que não demos atenção, já no passado, quando milhares de meninas - e meninos - foram sequestrados em conflitos armados? Por que não damos a devida atenção, neste exato momento, às meninas vítimas das redes de tráfico de pessoas, vendidas para casamentos precoces ou mantidas em cativeiro como "esposas" de grupos armados? Por que só agora nos revoltamos?

No dia 14, um grupo extremista, cujo nome pode ser traduzido grosseiramente como "a educação ocidental é proibida", sequestrou as meninas de uma escola da cidade de Chibok, no nordeste do país. O comboio desapareceu rapidamente na floresta e desde então só apareceu uma ou outra informação sobre o seu destino fora do país.

Segundo relatos, elas seriam vendidas para se tornarem escravas sexuais por "apenas" US$ 12 (como se um preço mais elevado melhorasse de algum modo a situação).

O objetivo declarado do Boko Haram é arrancar o controle do norte da Nigéria dos "falsos muçulmanos". O Crisis Group estima que o grupo terrorista, ligado à Al-Qaeda, tenha assassinado mais de 4 mil pessoas na Nigéria desde sua criação, há quatro anos. Segundo a Anistia Internacional, em 2013, realizou sete ataques contra escolas. O Human Rights Watch afirma que os militantes já utilizaram anteriormente crianças como moedas de troca.

No entanto, o sequestro de um número tão grande de jovens de uma só vez é algo impressionante. O Boko Haram escolheu um grupo vulnerável - meninas - que na maioria das sociedades carrega a inestimável conotação de pureza. E com esta designação de personificação da pureza, elas se tornam pouco mais que um símbolo. Na realidade, as moças são seres humanos marginalizados, explorados e ignorados no mundo todo. As meninas são a presa mais fácil da ira dirigida biblicamente contra Eva.

Considerar este fato um simples episódio de tráfico (ou de escravidão dos dias atuais, como frequentemente é definido), equivale a desconsiderar um ponto mais importante: os crimes contra as mulheres e as moças não só são a coisa mais comum, como costumam ser ignorados, não são levados perante os tribunais e nem sequer são noticiados pela imprensa internacional, particularmente quando ocorrem no Hemisfério Sul.

Além da dificuldade de se tentar enquadrar este caso numa categoria, existe um limite cultural quanto ao nível de profundidade em que estamos dispostos a discutir uma coisa tão dolorosa, afirma a ativista e escritora Soraya Chemaly.

"A impressão é que a violência sexual contra mulheres e meninas acabou se tornando um assunto com a qual nos acostumamos e já não chama tanto a atenção", afirma. "É uma coisa que está aí, que não notamos, mas sabem que está aí, e à qual nos referimos com uma série de eufemismos nas nossas conversas e na mídia".

O noticiário refere-se ao destino das meninas nigerianas sequestradas como "casamento de crianças", diz Chemaly, uma expressão que "abranda enormemente o que ocorre neste momento e o torna mais aceitável para as pessoas, quando na realidade é revoltante".

Mas compreender o que está acontecendo é crucial para pôr um fim a isso, diz Akila Radhakrishnan, diretora de assuntos jurídicos do Global Justice Center: "O fato de não se expor a experiência específica das meninas impede a responsabilização do crime, as reparações e os esforços de reabilitação".

O caso do líder da milícia congolesa Thomas Lubanga, no Tribunal Penal Internacional, por exemplo, que se concentrou em sua responsabilização pelo uso de crianças-soldados, não trata de nenhuma forma de violência sexual nas acusações ou nas sentenças.

"Das 129 vítimas representadas no processo, 30 falaram que foram obrigadas a assistir a violências sexuais. Para essas meninas, a violência sexual fez parte de sua experiência do conflito", diz Radhakrishnan. Mas a decisão de não considerar este crime no veredicto final, observa, "torna a justiça sem sentido para estas sobreviventes".

"Será que é isso que as pessoas discutem quando analisam o problema de tráfico internacional? Não exatamente", diz Cristina Finch, diretora do programa sobre direitos humanos da mulher da Anistia Internacional nos EUA. O que aconteceu ali, explica, tem mais a ver com o fato de as mulheres terem sido usadas historicamente como instrumento de guerra.

O Boko Haram debocha de um mundo que tem demonstrado que as meninas são algo descartável e podem ser utilizadas como armas. O grupo tem como alvo os seres mais indefesos da sociedade, aos quais passa a ser atribuído um valor de mercado.

Essencialmente, não é diferente do que pratica o governo sírio, que usa as mulheres como alvos de punição na guerra, supostamente estuprando-as na frente dos maridos ou enviando os vídeos para as famílias a fim de humilhá-las. Em ambos os casos, a ideia é demonstrar poder de tomar o que "pertence" a outros homens e usá-lo à vontade.

Compreender o que aconteceu com as meninas nigerianas e como resgatá-las implica em começar a entender o destino das centenas de milhares - quando não dos milhões - de moças nos vários anos de conflitos globais armados.

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