Rascunhos de uma crise

Como qualquer viajante, gosto de fazer anotações sobre os lugares que visito. O problema é quando se deixa para depois as reflexões. No retrovisor, a imagem sempre sai suspeita. O mesmo se pode dizer dos lugares que deixamos para trás.

Mac Margolis, O Estado de S.Paulo

24 de julho de 2011 | 00h00

A instigação é da motorista da van que me acolhe no aeroporto de Washington. Quais são as principais diferenças entre o Brasil e os EUA? A pergunta é simples, mas a minha vem com dificuldade, com a distorção dos anos passados fora do meu país natal.

Enquanto penso em algo que não seja obviedade, Sharon vai logo me dando uma cola. Os EUA estão na lona. Dois anos após a recessão, o país continua débil e ofegante. O desemprego ainda cresce e a dúvida hoje não é quando a recuperação virá, mas se ainda é possível evitar outro tombo desastroso. Sharon afirma que um em dez proprietários ainda está ameaçado de perder suas casas. A palavra operante nos EUA de hoje é crise.

Aí veio o estalo. Há 28 anos, quando me mudei para o Brasil, o mundo tinha uma ordem clara e confiável. Na época, os EUA também passavam por uma recessão, mas durou pouco. Logo, a confiança e soberba americanas voltaram à baila.

Para os jornalistas, havia no Brasil e na America Latina, em geral, duas pautas mestres. Uma era o novo despertar da democracia. A outra era a ameaça múltipla da dívida externa, da inflação selvagem e da disfunção crônica da vida econômica. Em uma palavra: crise.

Meu retorno aos EUA coincide com seu pior momento do último meio século, agravado por um desgastante jogo de empurra da classe política. Enquanto os partidos Democrata e Republicano, trocam pedradas, a Casa Branca de Barack Obama patina rumo à berlinda com data marcada.

Sem acordo do Congresso para elevar o teto do endividamento até o dia 2, o Tesouro não terá como honrar os pagamentos da dívida nacional, de US$ 14,3 trilhões. Será a mãe de todos os calotes e levará a maior economia ao Serasa global, com consequências ainda desconhecidas para o planeta.

Os dados são de arrepiar. Para cada dólar que o governo americano gasta, precisa tomar emprestado 43 centavos. Apenas o déficit de orçamento é de US$1,3 trilhão - dois terços do PIB brasileiro.

Segue em Washington o diálogo de surdos. Os democratas insistem em pagar a conta taxando os ricos e os republicanos exigem cortes drásticos dos programas sociais. Ambos têm uma parcela de razão, mas, com as eleições presidenciais de 2012 já na mesa, e a queda brutal de popularidade de Obama, ninguém ouve ninguém.

Para os republicanos, o temor é que um acordo de última hora acabe ressuscitando o presidente fragilizado, enquanto os democratas apostam que um "default" na dívida seja debitada nas urnas da conta dos republicanos intransigentes, assim esvaziando o voto anti-Obama.

Sei, intuitivamente, que a crise americana não será o final do mundo, como também que a ressurgente economia brasileira não está blindada contra tombos futuros. Mas observar o mundo inverter seu eixo não deixa de ser uma experiência rara, talvez única. Onde está o caderno de observações?

É COLUNISTA DO "ESTADO", CORRESPONDENTE DA "NEWSWEEK" NO BRASIL E EDITA O SITE WWW.BRAZILINFOCUS.COM

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