EFE/EPA/OLIVIER HOSLET
EFE/EPA/OLIVIER HOSLET

'Rastreador de covid-19', a nova profissão na Bélgica

Esforço do governo para mapear casos da doença no país acabou criando vagas de emprego

Redação, O Estado de S.Paulo

21 de maio de 2020 | 08h57

BRUXELAS - A pandemia do novo coronavírus teve um impacto inesperado na Bélgica. Um dos países mais afetados pela covid-19 na Europa, o pequeno reinado sofre as consequências econômicas e humanas que o vírus vem impondo aos demais países, mas teve uma repercussão particular: o surgimento de uma nova profissão.

Os "rastreadores de covid-19", como ficaram conhecidos, são funcionários de call centers especializados em tentar mapear e contactar pessoas que entraram em contato com pacientes infectados pelo novo coronavírus. A atuação dos profissionais é parte do esforço do país para conter a pandemia, que já tem 56.235 casos confirmados e causou 9.186 mortes.

Na ausência de acordo político para implementar um aplicativo ou outro sistema informatizado, as pessoas que testaram positivo para o novo vírus são contatadas por telefone pelos rastreadores de covid-19. Tarefa dos profissionais é estabelecer uma lista de pessoas com as quais os pacientes entraram em contato durante um período de dez dias, dois dias antes dos primeiros sintomas até sete dias depois.

Se o contato excedeu 15 minutos e a aproximação foi de menos de 1,50m, a pessoa que esteve em contato é considerada "de alto risco", e outro "rastreador" fica responsável por avisá-la, segundo o protocolo criado pela operação liderada pelo governo e tocada de forma fragmentada por diversas empresas.

A N-Allo, por exemplo, é um dos call centers associados à operação. Cerca de 60 rastreadores trabalham todos os dias no rastreamento do vírus, entre eles, Pierre Fournier, de 65 anos. O idoso explica que se apresentou quando soube que cada uma das regiões belgas estava contratando centenas de pessoas para essa operação sem precedentes que busca identificar possíveis portadores do vírus. "Eu queria contribuir com meu pequeno grão de areia para a localização e erradicação da pandemia", disse.

O rastreamento tem sido levado muito a sério pela Bélgica, especialmente porque há 15 dias autorizou uma reabertura progressiva e o medo de uma nova onda epidêmica paira entre os cidadãos. O objetivo da operação é reduzir os círculos de contaminação e permitir que o desconfinamento da população evolua.

Para completar o trabalho dos rastreadores, se após 24 horas a pessoa considerada de "alto risco" e que deve ficar isolada por 14 dias em casa não atender o telefone, assistentes sociais, paramédicos ou ambulâncias organizam uma visita domiciliar.

Aplicativo móvel, um "complemento"

"Enviamos profissionais acostumados a entrar em contato com pacientes doentes e que dominam vários idiomas, o que facilita as coisas", diz Gladys Villey, da Mutualité Partenamut, outra empresa envolvida na operação.

Das 340 visitas realizadas na região de Bruxelas desde o início das atividades, em 11 de maio, apenas "de 20% a 30%" se recusaram a colaborar, "felizmente uma minoria", ressalta a responsável.

"Muitas pessoas têm medo de nos fornecer informações. Tentamos tranquilizá-las, explicando que tais dados permanecem apenas em nossas mãos", enfatiza. 

Tranquilizar, criar um clima de confiança, mostrar empatia independentemente da idade do interlocutor... Os "rastreadores" da linha de frente, contratados por um período de três meses, receberam algumas dicas durante as sessões de treinamento.

Por sua vez, os médicos de família costumam avisar os doentes de que eles entrarão em contato. "Já criaram uma lista de contatos. Realmente não há efeito surpresa. A ligação geralmente leva de 10 a 15 minutos", explica Fournier.

Atualmente, a operação está "em andamento". Os pacientes fornecem em média "um ou dois nomes", uma vez que viram poucas pessoas durante os dois meses de confinamento, explicam os organizadores.

Mas, "à medida que o desconfinamento progredir, o número de contatos fornecidos aumentará", juntamente com o trabalho dos rastreadores, estima Xavier Brenez, diretor geral da Mutualités Libres, para quem um aplicativo móvel será um "complemento".

"O sistema de call center e agentes de campo continua fragmentado, pois não permite identificar casos de contato em locais públicos ou em transportes públicos", acrescenta./ AFP

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