Raúl deve adotar mudanças econômicas

Grupo confirmado no poder evitou o colapso do país na década de 90

Ruth Costas, O Estadao de S.Paulo

25 de fevereiro de 2008 | 00h00

Não há como não esperar mudanças na Cuba pós-Fidel quando aqueles que assumiram as rédeas da ilha foram os arquitetos das reformas que salvaram a sua economia do colapso nos anos 90, no chamado "período especial". Raúl Castro, o novo presidente, e Carlos Lage, um dos cinco vice-presidentes, ajudaram a implementar, após o fim da URSS, o pacote que legalizou o uso do dólar, abriu para o capital externo setores como o turismo e a exploração de petróleo e permitiu que 200 mil cubanos trabalhassem como autônomos em 148 categorias profissionais. De 1989 a 1993 Cuba havia perdido um terço de seu PIB. Foi esse pacote que deu sobrevida ao regime, fazendo a ilha voltar a crescer. Se as mudanças seguissem nessa direção, dizem os analistas, Cuba poderia estar hoje no caminho chinês. Tais reformas, porém, foram parcialmente revertidas uma década depois por Fidel Castro, quando ele descobriu um novo patrocinador para sua revolução - o venezuelano Hugo Chávez. Culpando as mudanças pelo aumento da desigualdade social no país, o líder cubano suspendeu licenças profissionais, estreitou a fresta para a entrada de investimentos e substituiu o dólar pelo peso conversível. De quebra, ainda prendeu 75 dissidentes. "Não descarto uma nova paralisação nas reformas, mas certamente isso hoje seria mais difícil", disse ao Estado Philip Peters, especialista em Cuba do Lexington Institute, nos EUA. "Tudo indica que o governo continuará a fazer pequenas mudanças até porque eles já entenderam que disso depende a sustentabilidade do regime." Nos seus 19 meses como presidente interino, Raúl fez ajustes gerenciais nas estatais e prometeu "reformas estruturais". Ontem, ele falou em enxugar o Estado, valorizar o peso e eliminar nas próximas semanas "as restrições mais simples" à população. CHÁVEZSegundo analistas, são dois os fatores que fazem com que os novos líderes não possam voltar atrás, como fez Fidel há quatro anos. O primeiro é que a ajuda venezuelana não durará para sempre. Hoje o que Chávez paga pelo serviço de 30 mil profissionais cubanos é uma das maiores fontes de renda do governo da ilha. São professores, médicos e engenheiros que trabalham na Venezuela ou países aliados. Em troca, Chávez envia para Cuba 92 mil barris de petróleo diários. A ajuda venezuelana - que pode chegar a US$ 6 bilhões - foi o que impulsionou a economia nos últimos anos, junto com a alta dos preços do níquel (principal produto da pauta de exportações), o turismo e os empréstimos chineses. Em 2007, Cuba cresceu 7,5% segundo as cifras oficiais. Para a CIA, foi 7%. "Essa ajuda pode acabar repentinamente se o preço do petróleo cair ou o poder de Chávez for ameaçado na Venezuela", diz José Azel, do Instituto de Estudos Cubanos da Universidade de Miami. O fantasma do "período especial" voltou a Cuba em dezembro, quando Chávez perdeu o referendo sobre uma reforma constitucional que lhe permitiria se reeleger indefinidamente. É para evitar um novo colapso que os cubanos fazem o que manda a cartilha das escolas de economia mais pragmáticas e liberais - diversificam suas parcerias.Raúl se aproximou do Irã e de Angola, grandes produtores de petróleo. A Rússia prometeu à ilha US$ 370 milhões em créditos comerciais e uma parceria com a China permitiu a substituição dos velhos veículos soviéticos por ônibus econômicos. Havana também vem investindo nos contatos com a Europa. O Canadá sempre foi um parceiro estratégico e há indícios de que o Brasil já é visto como tal. O outro motor das mudanças são as expectativas da população, que o presidente interino ajudou a impulsionar. Não faltam motivos para as queixas. Os cubanos não podem viajar, usar internet ou entrar em hotéis - o que já é contestado pelos jovens. Eles ganham em torno de US$ 25 por mês. Fora isso, recebem uma cota de produtos de primeira necessidade - basicamente, arroz, feijão, óleo, açúcar, frango e itens de higiene pessoal -, que dura pouco mais de uma semana.REQUINTE"A agricultura é um setor problemático", diz Wayne Smith, do programa cubano do Center for International Policy, em Washington. "Eles importam boa parte do que consomem."Para chegar ao fim do mês ou dar-se ao luxo de uma refeição "requintada" - um simples bife ou leite fresco -, os cubanos têm de se virar. Foi tal realidade que nutriu o robusto mercado de produtos desviados das estatais. "Em Cuba espera-se que as reformas comecem pelo fim da moeda dupla", diz o analista político José Natanson, diretor da revista Nueva Sociedad, na Argentina. "Eles se ressentem de receberem em moeda nacional e terem de comprar em peso convertível." Para o governo, o grande culpado por tais problemas sempre foi o embargo dos EUA. "De fato, o embargo agravou as dificuldades, mas a principal causa da ruína econômica foram as ineficiências do sistema cubano", diz Peters. A grande incógnita, agora, é saber até onde Raúl está dispostos a ir nas reformas. Alguns analistas acreditam que a própria presença de Fidel ainda deve inibir mudanças radicais. Não é a toa que no discurso de ontem, Raúl fez questão de deixar claro que as linhas gerais da política e economia serão mantidas. "Fidel ainda tem muita influência e pode querer exercer seu poder de veto", diz Natanson. "Além disso, eles sempre tentarão pisar no freio quando notarem que a abertura econômica pode ampliar a demanda por liberdades políticas."NÚMEROS6 bilhões de dólares é a ajuda venezuelana para Cuba45 bilhõesde dólares foi o PIB registrado em 200730 milprofissionais cubanos atuam em projetos de Chávez. São médicos, professores,engenheiros e especialistas em segurança25 dólaresé o salário médio dos cubanos 7,5 % de crescimentofoi o aumento da economia no ano passado segundo o governo cubano. A CIAfala em cifras um pouco menores: 7%11 milhõesé o número de habitantes da ilha

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