Raúl é o favorito para substituir o irmão, mas pode haver surpresa

Parlamento anuncia o nome do novo chefe de Estado domingo; analistas dizem que, na prática, escolha caberá a Fidel

Ruth Costas, O Estadao de S.Paulo

20 de fevereiro de 2008 | 00h00

A renúncia de Fidel Castro reduz, mas não elimina as incertezas sobre a sessão da Assembléia Nacional cubana de domingo, na qual os 614 deputados anunciarão quem será o novo chefe do Conselho de Estado - principal órgão do Executivo cubano. O mais provável, segundo analistas, é que o indicado seja mesmo o irmão mais novo de Fidel, Raúl Castro, de 76 anos, que desde julho de 2006 é o presidente em exercício na ilha. No entanto, é possível que haja surpresas. Veja galeria de fotos, áudios, vídeos, entrevistas e cronologia no site"A saúde de Raúl está debilitada e ele nunca mostrou muito entusiasmo para substituir o irmão em todas as suas funções", disse ao Estado Edward Gonzalez, cientista político da Universidade da Califórnia, que estuda a ilha há 40 anos. "Não acho impossível um cenário em que haveria uma divisão de poder na ilha: Raúl seria o comandante-chefe, mas uma segunda figura assumiria o governo." Até agora, quem está melhor cotado para conseguir a liderança do Executivo cubano - além de Raúl, obviamente - é Carlos Lage, de 56 anos, um dos cinco vice-presidentes do Conselho de Estado e secretário-executivo do Conselho de Ministros. Pediatra de formação, Lage tornou-se conselheiro de Fidel nos anos 90, quando o país parou de receber subsídios anuais de até US$ 6 bilhões após o colapso da União Soviética. Nessa época, conhecida como "período especial", tanto ele quanto Raúl apoiaram as reformas que permitiram a abertura de pequenos negócios. Também é cotado o presidente do Parlamento cubano, Ricardo Alarcón, de 71 anos, embora os analistas concordem que suas chances são mais reduzidas. "De qualquer forma, ainda que um ?outsider? ganhe poder, Raúl e, na medida em que sua saúde permita, Fidel, continuarão a tomar as decisões cruciais", diz Gonzalez. Outro dado importante é que mesmo com Fidel afastado do governo, a própria presença do líder cubano deve inibir qualquer tentativa de promover reformas substanciais. "É por isso que este é sem dúvida um processo de sucessão, não de transição para um regime mais aberto do ponto de vista político e flexível na economia", diz José Azel, pesquisador do Instituto de Estudos Cubanos da Universidade de Miami, lembrando que o líder cubano ainda não anunciou se também deixará a liderança do Partido Comunista. "Com Fidel vivo não teremos democracia nem abertura econômica em Cuba."No domingo, o Parlamento cubano apontará os 31 membros do Conselho de Estado. Em seguida, esse conselho se reunirá para decidir quem será o novo presidente. O governo cubano diz que o processo é democrático, já que o Parlamento foi eleito. Mas a verdade é que o povo cubano não teve opções - nas eleições havia 614 candidatos para 614 cadeiras. Os analistas explicam que mais uma vez a decisão sobre a sucessão está nas mãos de Fidel, seu irmão e o núcleo duro em torno do líder cubano, grupo que sempre deu as cartas na ilha. DESAFIOS ECONÔMICOSOs problemas provocados pela ruína econômica devem continuar a ser os principais desafios do governo cubano. Nos últimos meses, Raúl ajudou a impulsionar as expectativas de reforma, prometendo "mudanças estruturais". "Temos o dever de questionar o que fazemos para fazer melhor; para transformar concepções e métodos que eram apropriados em certo momento, mas foram superados", disse, num discurso em julho. As queixas dos cubanos vão desde os baixos salários - em torno de US$ 15 por mês - até as restrições para que viajem, abram negócios ou freqüentem hotéis. Mesmo o sistema de saúde, que antes era um dos cartões de visitas da revolução, está cada vez mais sucateado. Cerca de um terço dos médicos, por exemplo, foi trabalhar na Venezuela, num acordo que está entre as principais fontes de recursos do governo, mas prejudica o atendimento na ilha. "Nos últimos meses, começaram a circular em Cuba rumores de que o governo pode permitir que os cubanos comprem casas ou eliminar a dupla moeda (peso cubano e peso convertido) que corrói o poder de compra da população", diz o economista cubano Carmelo Mesa Lago, professor da Universidade de Pittsburgh (EUA), e autor de dezenas de livros sobre Cuba. Outro exemplo desse afã por reformas é um vídeo no qual jovens da Universidade de Ciências Informáticas (UCI), em Havana, fazem perguntas para Alarcón, durante uma palestra. A gravação virou um hit na ilha - onde é vendida no mercado negro. "Por que os cubanos precisam trabalhar três dias para comprar uma escova de dentes?",pergunta Eliécer Ávila, um dos estudantes, que depois foi obrigado a explicar que o vídeo foi mal interpretado numa gravação divulgada pela imprensa oficial. "O salário médio dos cubanos caiu 75% nos últimos 20 anos", diz Mesa Lago. "Antes de reformas políticas, como os chineses, eles querem oportunidades econômicas para conseguir superar o que se tornou uma batalha diária pela sobrevivência."

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.