Raúl é reeleito, promete deixar poder em 5 anos e aponta sucessor em Cuba

O presidente cubano, Raúl Castro, reeleito ontem pela Assembleia Nacional para seu último mandato de cinco anos, disse que a escolha de Miguel Díaz-Canel, de 52 años, como o primeiro vice-presidente do Conselho de Estado - na prática, o favorito na linha de sucessão - é o início da "transferência paulatina e ordenada de poder para as novas gerações".

HAVANA, O Estado de S.Paulo

25 de fevereiro de 2013 | 02h03

"É um passo definitivo na configuração da futura direção do país", disse Raúl em seu discurso. "A renovação é um processo que deve continuar nos próximos cinco anos, e prosseguir de maneira ininterrupta, para evitar que não tenhamos uma reserva de quadros preparados."

Com a aposentadoria de Fidel e Raúl, Cuba terá, pela primeira vez, um líder de fora da família Castro a partir de 2018, quando os irmãos completariam quase 60 anos no poder. Para muitos cubanos, no entanto, a saída da velha guarda não significa necessariamente mudança.

"Entendo que tem de haver uma renovação no poder com mais gente jovem ocupando os altos cargos do governo. Contudo, precisamos de jovens com mentalidade jovem. De nada adianta que venham jovens com a mesma mentalidade dos velhos. Isso não vai resolver os problemas dos cubanos", disse o economista e analista político Oscar Espinosa Chepe.

O especialista, que integrou os quadros do Partido Comunista Cubano (PCC) por quase 20 anos antes de passar para a dissidência, afirmou que Díaz-Canel, por toda sua carreira no governo, "sempre manifestou total lealdade a Fidel e a Raúl". "Não acho que ele seja um homem de mudança. Ele sempre foi muito fiel (aos irmãos Castro). Precisamos de jovens com um pensamento renovado, para levar a cabo as transformações que Cuba requer neste momento. Precisamos de vontade de mudança entre os líderes do país, não continuidade, principalmente em virtude da iminência do risco da perda do vínculo com a Venezuela."

Espinosa disse também que falta ao novo primeiro vice-presidente do país uma boa relação com os militares, algo com que os irmãos Castro não tiveram de se preocupar, em razão de seu papel fundador nas Forças Armadas após a Revolução Cubana. "Se ele quer ser presidente, terá de conquistar esse apoio. Sem esse aval, ninguém tem capacidade de se sustentar no poder em Cuba", disse o analista.

Vestindo traje esportivo, o ex-presidente Fidel Castro reapareceu ontem de maneira surpreendente na Assembleia Nacional, onde não ia desde agosto de 2010, quando convocou uma sessão para falar sobre os perigos de uma guerra nuclear. Desde 2006, quando teve graves problemas de saúde, Fidel havia se ausentado reiteradamente das sessões do Parlamento.

No mesmo dia, o governo apertou a repressão contra seus dissidentes e mais de 50 integrantes do grupo Damas de Branco foram presas em manifestação em Havana. O líder opositor Elizardo Sánchez, diretor da Comissão Cubana de Direitos Humanos e Reconciliação Nacional (CCDHRN), afirmou que ativistas foram detidos também nas províncias de Villa Clara, Ciego de Ávila e Santiago de Cuba. Em Havana, no protesto das Damas de Branco, um grupo de jornalistas independentes ligados à dissidente Yoani Sánchez também foi detido. Até o fim da tarde de ontem, a CCDHRN não tinha o balanço do total de presos.

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