Raúl lança debate sobre reformas

Após admitir que salários são insuficientes, irmão de Fidel pede a cubanos propostas para melhorar produtividade

O Estadao de S.Paulo

07 de setembro de 2021 | 00h00

Num raro movimento político em Cuba, o presidente interino Raúl Castro convidou a população para um debate aberto sobre a situação econômica do país. O convite para a discussão se dá dois meses depois de Raúl ter admitido num discurso que os salários na ilha são muito baixos e a agricultura precisa de reformas estruturais para alimentar o país. Desde que assumiu o governo no lugar de seu irmão Fidel Castro há mais de um ano, Raúl tem-se mostrado mais aberto às "críticas construtivas". Ele também exigiu estudos de especialistas sobre propostas de reformas que elevem a produção das estatais - que respondem por mais de 90% da economia do país.No entanto, o escritor e dissidente cubano Carlos Alberto Montaner estima que, enquanto Fidel viver, poucas mudanças ocorrerão em Cuba. "Está bastante claro que o governo de Raúl tem uma tendência maior às reformas", afirmou Montaner, por telefone, ao Estado. "Mas Fidel ainda impede mudanças de caráter econômico e social no país.""A população tem-se manifestado como nunca sobre todos os problemas", disse um membro do Partido Comunista após um dos debates. As queixas vão dos baixos salários - em torno de US$ 15 por mês - até às restrições para que pecuaristas abatam as vacas que têm, comprem carros ou freqüentem hotéis para turistas."É reformar ou perecer! O mundo e, em especial, a América Latina mudaram tão drasticamente que se tornou inevitável repensar o socialismo cubano", disse Domingo Amuchastégui, ex-funcionário do alto escalão do serviço de informações cubano que desertou no início da década de 90. Os debates nas bases populares são parecidos com iniciativas lideradas por Fidel no final da década de 80 e em meados da década de 90."A novidade é que Fidel está menos atuante e outros precisam construir um novo consenso, uma vez que as pessoas não estão respondendo à atual política", afirma Rafael Hernández, editor da Temas, uma revista cubana que costuma encorajar discussões de questões como relações raciais e economia de mercado - com conclusões normalmente coincidentes com as do governo.Montaner acredita que após a morte de Fidel, Raúl tentará impor rapidez às reformas econômicas, com enfoque especial na produção de alimentos. "Ele deve conduzir a transição de modo que haja uma espécie de confiança de que as coisas vão mudar." No entanto, diz Montaner, não haverá uma reforma drástica que restabeleça totalmente a confiança internacional em Cuba.

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