Raúl propõe troca de prisioneiros com EUA

Líder cubano pede fim do embargo e admite trocar dissidentes por espiões

Leonencio Nossa, BRASÍLIA, O Estadao de S.Paulo

19 de dezembro de 2008 | 00h00

O presidente de Cuba, Raúl Castro, propôs a troca de dissidentes políticos encarcerados em Havana por cinco cubanos presos nos EUA há dez anos, por suspeita de espionagem. Em entrevista ao lado do presidente Lula após almoço no Itamaraty, Raúl disse que a reaproximação dos governos cubano e americano não pode se dar por "gestos unilaterais". "Estamos dispostos a falar com o senhor (Barack) Obama, mas em absoluta igualdade de condições", afirmou. "Se Obama quer dialogar, dialogaremos."Condenados pela Justiça americana em 2001, os cinco cubanos presos nos EUA faziam um trabalho de inteligência em Miami, cidade onde atuam grupos anticastristras, como admitiu o governo de Havana. Os presos são considerados "heróis" por Raúl e Fidel Castro.Em Washington, o Departamento de Estado exortou o governo cubano a libertar os presos políticos "imediatamente", rejeitando a proposta de Raúl. "A questão dos presos político é diferente da dos cinco espiões julgados e condenados pelo sistema judiciário americano", disse o porta-voz Robert Wood.Na entrevista, o presidente cubano queixou-se do embargo econômico imposto pelos EUA. Tentando demonstrar simpatia, disse que estava encantado com as mulheres brasileiras. Ele só se irritou com uma pergunta do Estado sobre fuzilamentos no paredão de adversários do governo de Fidel. "É uma pergunta vendida", disse. Pouco antes da entrevista, Lula afirmou em discurso que os embargos econômicos a Cuba não têm sustentação política, ética e moral. Ao receber Raúl no Itamaraty, ele voltou a defender a revogação do ato de suspensão de Cuba da Organização dos Estados Americanos (OEA) e pedir o fim do bloqueio à ilha imposto pelos EUA. "O Brasil vai se empenhar para a revogação do ato", disse.Lula, em seu discurso, lembrou que a revolução de 1959 serviu de inspiração para uma geração brasileira durante o regime militar (1964-1985). "O patrimônio desse povo revolucionário (cubano) nos inspirou nos tempos terríveis da opressão e continua a nos motivar na construção de um mundo melhor", afirmou. "Muitas gerações de brasileiros, incluindo a minha, celebraram as transformações sociais que Cuba realizou, nesses últimos 50 anos, e essas mudanças colocaram o seu país na condição de nação extremamente desenvolvida em matéria de saúde e educação."No discurso, Lula pediu mudanças no sistema econômico e político internacional. "Quando a ganância de uns poucos ameaça as legítimas aspirações de bem-estar de muitos, torna-se inadiável uma profunda revisão no sistema financeiro internacional", afirmou. "Isso exige que os países em desenvolvimento tenham a voz mais ativa nas decisões que afetam toda a humanidade", completou. Lula ainda elogiou Raúl pela adesão de Cuba a tratados internacionais nas áreas de direitos civis, políticos, econômicos e sociais e culturais. "Isso demonstra que o caminho é o da negociação e não apenas o enfrentamento", disse. Lula observou que a balança comercial entre os dois países multiplicou-se cinco vezes desde 2002. No ano passado, a corrente de comércio somou US$ 412 milhões. Ele defendeu parcerias comerciais e tecnológicas, principalmente nas áreas de agricultura, saúde e exploração de petróleo e gás em águas profundas.Também em discurso, Raúl Castro agradeceu ao governo brasileiro pela "permanente rejeição" ao bloqueio econômico imposto a Cuba pelos EUA. Ele defendeu a integração dos países do continente. FRASESRaúl CastroPresidente de Cuba"Estamos dispostos a falar com o senhor Obama, mas em absoluta igualdade de condições""Somos maiores de idade e já podemos ter voz própria e dizer para os vizinhos (...) do mundo inteiro que podemos dar passos que nos conduzam a outra situação"Luiz Inácio Lula da SilvaPresidente do Brasil"Muitas gerações de brasileiros celebraram as transformações sociais que Cuba realizou (...) e essas mudanças colocaram o país na condição de nação extremamente desenvolvida em matéria de saúde e educação"

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