Razão e democracia
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Razão e democracia

Se a realidade é dolorosa e ameaçadora, o incentivo para fugir dela se torna maior

Lourival Sant'Anna, O Estado de S.Paulo

03 de maio de 2020 | 04h00

Numa primeira aproximação, a pandemia deveria ser o grande momento da ciência, do conhecimento, da informação, da transparência. Quanto mais gente tiver acesso à orientação correta, menos gente sofrerá. Mas esse olhar sofre de um vício de origem: a própria racionalidade. É preciso ser racional para acreditar nisso. É apenas a racionalidade legitimando a si mesma.

Assim como a racionalidade, a irracionalidade também tem uma lógica interna, um funcionamento capaz de se retroalimentar e reforçar, independentemente dos fatos. A irracionalidade, o autoritarismo, a manipulação da informação, tudo isso é um descolamento dos fatos. De maneira que os fatos não servem de indicador do sucesso ou fracasso do sistema. Eles são irrelevantes, ignorados, confundidos com sentimentos, impressões, opiniões. 

Nas minhas coberturas de tragédias, sejam guerras, o terremoto do Haiti ou a gripe suína do México, aprendi que o pensamento mágico se torna mais forte quanto mais as pessoas se sentem vulneráveis. Se a realidade é dolorosa e ameaçadora demais, o incentivo para fugir dela se torna maior. 

Num momento de emoções à flor da pele, como o que atravessamos, a qualidade da argumentação fica prejudicada. A ansiedade faz as pessoas queimarem etapas entre causas e consequências, para chegar logo a conclusões, em sua busca desesperada por respostas e soluções. Esse não é o ecossistema da racionalidade, mas do pensamento mágico. O salto é facilitado pelo fato de que já vivíamos essa tendência de valorizar a emoção em vez da razão, a crença em vez do fato.

A ciência, o jornalismo e a democracia já estavam sob ataque antes da pandemia. Nenhum deles é perfeito. Até porque a perfeição não existe no mundo real. Ela povoa, ao lado de todos os conceitos absolutos, o mundo recriado pelo pensamento mágico - daí sua grande sedução.

Aqueles que se mantêm, ou tentam se manter, no registro racional, enfrentam um enorme desafio, porque lhes são oferecidos menos parâmetros seguros, e porque, como somos todos humanos, também podemos ser arrastados pelas emoções, em um momento de tamanha fragilidade.

O que fazer? Respirar fundo e se manter longe das polêmicas nas redes sociais são um bom começo. Veja por exemplo a suspeita lançada pelo presidente Donald Trump de que o vírus se originou de um laboratório de Wuhan, na China. O genoma do vírus já demonstrou que ele veio da natureza. O vírus experimentado em Wuhan tem diversificação média de 50 anos em relação ao que causou a pandemia, segundo Edward Holmes, professor de biologia da Universidade de Sidney, que participou do sequenciamento. Isso é uma eternidade na mutação de um vírus.

Outro exemplo é o remdesivir, cujo uso em casos de covid-19 foi aprovado na sexta-feira pela FDA, a agência reguladora de drogas e alimentos dos EUA. A autorização emergencial passou por cima de testes de eficácia e segurança normalmente feitos para licenciar uma droga. Houve pressão de Trump, ansioso para reabrir a economia americana.

Mas a gravidade da pandemia justifica medidas excepcionais. Desde que se sigam as orientações dos especialistas. A ciência é a bússola para navegar nesse maremoto. O que preocupa é que as pessoas se sintam incentivadas a abandonar os cuidados, desprezando as informações de que o remdesivir não cura a covid-19, apenas acelera a recuperação e reduz as mortes. Mas pacientes que usaram a droga também morreram. 

Aqui a qualidade da democracia, no sentido da liberdade de informação, e dos líderes, no sentido de não confundir a população e não agir de forma irresponsável, se torna decisiva. Não há garantia de que os que manipulam a informação se darão mal politicamente. Eles nunca basearam seu sucesso nos fatos. Mas, para quem não quer se entregar ao pensamento mágico, a expressão da racionalidade na política é a democracia, com todas as suas imperfeições. 

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