Razões da conduta russa

Inúmeras medidas podem ser tomadas contra Moscou; basta coragem

RICHARD N., HAASS, PROJECT SYNDICATE, O Estado de S.Paulo

17 de abril de 2014 | 02h08

O tempo é necessário para a informação vir à luz, para os memoriais serem escritos e o significado dos eventos ser revelado. Mas Ocidente não pode dar-se o luxo de esperar para entender os acontecimentos na Ucrânia, simplesmente porque não há nenhuma garantia de que o que aconteceu na Crimeia seja um fato isolado Milhares de soldados russos continuam estacionados na fronteira leste da Ucrânia. Diariamente, há novos relatos de agitações na Ucrânia, em grande parte instigadas pela Rússia.

Vladimir Putin quer recolocar a Rússia no que considera seu lugar de direito no mundo. Ele está irado com o que lhe parece a série de humilhações sofridas desde o fim da Guerra Fria, como o desmembramento da União Soviética e a ampliação da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). Vê claramente que a restauração da antiga grandeza da Rússia é um objetivo compartilhado por muitos compatriotas. A política externa pode promover uma boa política interna.

Acredita-se que Putin continuará interferindo na Ucrânia enquanto puder - e enquanto ela servir ao seu objetivo de intensificar seu poder no seu país.

Contestar a interferência russa na Ucrânia não garante a incorporação desse país à Otan. Fazê-lo exigiria defender a Ucrânia militarmente, o que acarretaria consideráveis riscos. Não manter esse compromisso levantaria consideráveis dúvidas em todo o mundo a respeito da credibilidade dos EUA. O presidente Barack Obama definiu corretamente a Rússia como uma potência regional e não global - forte em sua periferia e com um interesse substancial no futuro da Ucrânia.

O Ocidente tem várias opções. Uma delas é fortalecer politicamente a Ucrânia (ajudando com eleições e fazendo com que um novo governo atue) e também economicamente. O pacote de dois anos no valor de US$ 2 bilhões em ajuda, basicamente com recursos da União Europeia e do FMI, será importante. A assistência no campo da segurança deveria enfatizar a inteligência e a manutenção da ordem.

Outra opção é preparar uma nova rodada de sanções econômicas contra a Rússia - mais rigorosas do que as adotadas depois da invasão e anexação da Crimeia. As novas medidas deveriam afetar instituições financeiras russas e limitar o que pode ser exportado para a Rússia. EUA e UE deveriam comunicar seu acordo a Putin, para que ele soubesse o preço por desestabilizar a Ucrânia.

Também será necessária uma ação diplomática na política ocidental. Os russos pensariam duas vezes antes de apoiar a política externa do seu país se compreendessem nas consequências para seu padrão de vida. E talvez se surpreendessem ao tomar consciência da extensão da riqueza pessoal de Putin, que deveria ser divulgada.

Também poderão ser tomadas medidas para enfraquecer o estrangulamento energético imposto à Ucrânia e a grande parte da Europa Ocidental. Os EUA teriam condições de começar a exportar petróleo e aumentar sua capacidade de vender gás natural. Os europeus poderiam adotar medidas para a introdução das tecnologias que levaram ao boom da produção de gás nos EUA e a Alemanha poderia rever sua posição sobre energia nuclear.

A Rússia, país de apenas 143 milhões de habitantes que carece de uma economia moderna, deveria ter a oportunidade de desfrutar dos benefícios da integração internacional, mas somente se agisse com comedimento. Justifica-se a adoção de políticas que já se mostraram eficazes para fazer frente a um país de pretensões imperiais externamente, mas com pés de barro internamente. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

É PRESIDENTE DO CONSELHO DE RELAÇÕES EXTERIORES E AUTOR DE 'FOREIGN POLICY BEGINS AT HOME'

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