Razões para Obama apertar a mão de Raúl Castro

ANÁLISE: David Swerdlick / THE ROOT

O Estado de S.Paulo

12 de dezembro de 2013 | 02h02

Qualquer pessoa que se lembra de épocas mais antigas - para ser exato, de 1.º de maio de 2011 - sabe que Barack Obama é capaz de fazer uma apresentação divertida, com traje a rigor, sorrindo diante de um bando de jornalistas, enquanto um grupo de soldados das Forças Especiais da Marinha cruza a fronteira entre Afeganistão e Paquistão - sob suas ordens - para matar Osama bin Laden. De modo que é difícil entender por que os críticos entenderam o seu breve e educado aperto de mão e a saudação ao presidente cubano, Raúl Castro, como uma espécie de traição dos reais sentimentos de Obama.

O fato é que ninguém sabe o que Obama estava pensando naquele momento. Poderia ser algo pitoresco, como "ainda adoramos aquela praia arrendada na baía de Guantánamo, meu camarada". Mas talvez ele tenha percebido de modo um tanto incômodo que seria muito deselegante não cumprimentar o presidente cubano. As pessoas costumam fazer muito alarido quando Obama aperta a mão de um Hugo Chávez ou conversa com líderes iranianos - mas falar, apertar a mão, tudo isso constitui uma boa parte das suas responsabilidades.

O The Blaze, de Glenn Beck, trouxe como título de capa: "Obama aperta a mão de um ditador comunista", John Nolte, do Breitbar qualificou o cumprimento como "mais do que inquietante" e o comentarista de rádio Michael Graham, em tom meio irônico cutucou o presidente Obama na Fox News, fazendo a pergunta "o que ele irá discutir, dicas sobre como os cubanos poderiam melhorar o website do Obamacare?" E vimos também a previsível reação no Twitter com seus críticos postando descrições de Obama curvando-se diante de Castro para depois seguir na direção do túmulo de Lenin e depositar uma coroa de flores.

A razão pela qual Obama apertou a mão de Castro não tem nada de controvertido: Obama foi bem-educado. Um termo normalmente usado para definir o mau comportamento de uma pessoa, como quando dizemos "este sujeito não teve educação em casa". Como destacou um usuário do Twitter: "Se acha que o presidente deveria ter tratado rudemente um líder de uma nação soberana num funeral, então você não tem nenhuma educação e nem bom senso". Com base nas regras rígidas do protocolo, não cumprimentar Castro - mesmo que ele seja um adversário - seria simplesmente um gesto indelicado da parte do presidente.

Além disso, como Cuba ainda é um adversário dos americanos, pergunte-se isso: por que Obama daria ao regime castrista mais motivo para as divergências desconsiderando o seu líder? A imagem de Obama - ou dos americanos - não seria melhor se as manchetes do dia seguinte fossem: "A caminho do palanque, Obama deixa Castro plantado à espera de um cumprimento". Como disse outro tuíte: "Mantenha seus amigos por perto e seu inimigos mais perto ainda. Um aperto de mão é algo insignificante".

Embora possa ter sido apenas uma tentativa diplomática sutil, o cumprimento também pode ser simplesmente o modo de Obama de incomodar as pessoas. Obama anda um pouco amargo e taciturno, oprimido pela popularidade em queda nas pesquisas e incapaz de desfrutar plenamente sua única forma de recreação - o golfe - porque mesmo neste caso ele tem problemas com os críticos. Assim, depois de um longo voo para a África do Sul, que será seguido de uma longa viagem de volta, quem sabe? Talvez ele só estivesse pensando: "Sim, apertarei a mão dele. Vejamos o que acontece". / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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