Reprodução/secretearth.com
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Reabertura traz mais esperança para negócios privados em Cuba

Retomada da relação com os EUA já ampliou clientela, mas problemas como escassez de matéria-prima persistem

Cláudia Trevisan, ENVIADA ESPECIAL / HAVANA, O Estado de S. Paulo

27 de março de 2016 | 05h00

HAVANA - Construído no fim do século 18, o casarão onde funciona o restaurante Atelier, em Havana, era um típico produto da Revolução de 1959, com várias famílias dividindo o espaço que antes era propriedade da aristocracia. Há pouco mais de cinco anos, Niuris Higueras Martínez usou imóveis que pertenciam a ela, a seus pais e irmãos para realizar uma permuta por metade do espaço da casa.

Hoje, o Atelier é um dos melhores restaurantes da capital e Niuris, um dos mais bem sucedidos exemplos do crescente capitalismo à cubana. Desde que a ilha e os EUA anunciaram o restabelecimento de relações diplomáticas, no dia 17 de dezembro de 2014, o movimento do Atelier cresceu em 50%, observou a empresária. Sua expectativa é manter o mesmo ritmo de expansão este ano. Niuris não revelou qual foi seu faturamento em 2015, mas disse que só em impostos pagou 55 mil pesos conversíveis, o equivalente a cerca de R$ 236 mil. 

Os americanos representam 85% da clientela. Os cubanos, apenas 1%. Um jantar com bebida no Atelier sai por cerca de 25 pesos conversíveis (R$ 107,5), mais que o salário médio de 20 (R$ 86) dos moradores da ilha. A moeda é conhecida pela sigla CUC e tem valor distinto do peso cubano, cotado a 25 por dólar.

O governo usa o eufemismo “cuentapropristas” (trabalhadores por conta própria) para se referir aos que se aventuram no incipiente setor privado. A grande maioria é realmente dona de negócios de uma só pessoa, mas há um número crescente de empresários que investem e têm empregados em atividades como academias de ginástica, confeitarias, cafeterias, entrega de pizza e sushi, salões de cabeleireiros e pet shops. Impulsionados pelo turismo, restaurantes e pousadas estão entre os empreendimentos que mais crescem. No dialeto do capitalismo cubano, eles são chamados de “paladares” e “casas particulares” e são o símbolo da primeira onda de abertura à iniciativa privada, nos anos 90. 

Durante quase duas décadas, essas atividades foram submetidos a estritos controles, que dificultavam a expansão. Em 2010, o governo cubano mudou sua política, reduziu as restrições e ampliou a lista de atividades que podem ser exercidas pelo setor privado. Desde então, o número de negócios registrados mais que triplicou, passando de 150 mil para cerca de 500 mil. 

Tecnologia. Novos bares e restaurantes se multiplicam em Havana e há pelos menos um aplicativo para celular que orienta a navegação de cubanos e turistas nesse universo cada vez mais povoado: o Guia Excelência Gourmet Cuba. O site alamesacuba.com traz críticas gastronômicas e uma lista de 517 restaurantes em Havana.

Apesar das reformas, os empreendedores continuam a enfrentar dificuldades e barreiras – entre elas, um limite de 50 lugares para os restaurantes. 

Leo Perez Llanes abriu seu salão de beleza há dois anos. Seu plano era construir um andar superior na casa em que trabalha, para transformar o térreo em um escola de cabeleireiros. As obras começaram, mas o dinheiro acabou. Em outros países, Llanes poderia pedir um empréstimo bancário para investir, mas essa possibilidade é inexistente em Cuba.

“O banco dos cubanos são os parentes no exterior”, disse Peter Schechter, diretor do Centro para América Latina do Atlantic Council. As remessas dos EUA para Cuba dispararam desde 2009, quando o presidente Barack Obama reduziu restrições para o envio de recursos – em setembro, elas foram totalmente eliminadas. 

No ano passado, o valor se aproximou dos US$ 2 bilhões, o equivalente a 3% do PIB da ilha. Economistas estimam que a cifra supere os US$ 5 bilhões se forem incluídos o envio de bens de consumo e equipamentos, muitos dos quais utilizados nos pequenos negócios.

Llanes não tem acesso a essa “linha de crédito” do exterior e precisa poupar para investir. A cada mês, ele ganha entre 2 mil e 3 mil CUCs (R$ 8,6 mil a R$ 12,9 mil), uma fortuna quando comparada aos salários pagos pelo Estado. Sua clientela é formada por cubanas, que pagam 10 CUCs (R$ 43) para lavar, cortar e pentear cabelos longos. Para os curtos, o preço é de 5 CUCs.

A maior queixa do cabeleireiro, repetida por todos os empreendedores da ilha, é a ausência de um mercado atacadista onde possa comprar seus produtos a preços mais baixos que no varejo. Os “cuentapropristas” cubanos adquirem seus insumos e matérias-primas nos mesmos supermercados, lojas e feiras frequentadas pelos consumidores finais.

Além do preço mais elevado, eles enfrentam escassez e inconstância na oferta de mercadorias. O cardápio do Atelier é escrito à mão todos os dias, de acordo com o que Niuris consegue encontrar. Na confeitaria Tamy’s Cakes, a grande preocupação é encontrar farinha e ovos frescos, segundo o gerente Mario Martínez.

 

Localizada no bairro Vedado, a pequena empresa tem 16 empregados e foi fundada em julho de 2014 por Tamara Morejón. Mas não é só o nome em inglês e o estilo moderno que a diferencia dos tradicionais negócios cubanos. “Nossa maior preocupação é a satisfação do cliente”, disse Martínez, ecoando parte da cartilha da cultura empresarial americana. Ex-piloto de combate da Força Aérea de Cuba, ele trabalha na Tamy’s Cakes há um ano e quatro meses, com um salário de 300 CUCs (R$ 1.290).

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