Reação a golpe indica nova visão dos EUA

Com amplo histórico intervencionista, Washington busca se redimir na região

Patrícia Campos Mello, WASHINGTON, O Estadao de S.Paulo

03 de julho de 2009 | 00h00

Apesar de discordar da tentativa canhestra do presidente Manuel Zelaya de reter o poder a partir de uma consulta popular, a Casa Branca liderou a condenação do golpe em Honduras, tentando se redimir de seus pecados do passado. E, segundo analistas, o presidente Barack Obama foi bem-sucedido em demonstrar que levou mesmo uma estratégia diferente para região. Com a Operação Condor, nos anos 70, os EUA apoiaram vários regimes de facto. A CIA (Agência Central de Inteligência) assessorou ditaduras na região, para evitar a vitória de presidentes que se alinhavam mais com a então União Soviética.Obama enfrentou oposição doméstica. Vários congressistas republicanos e alguns democratas condenaram o alinhamento dos EUA com países como a Venezuela na condenação do golpe. "Por que não condenaram dessa mesma maneira enfática a eleição roubada do Irã?", perguntou uma fonte de um instituto de direita.Vozes mais conservadoras, como o editorial do Wall Street Journal, consideram que a Organização dos Estados Americanos (OEA) e os EUA não podem fechar os olhos para a epidemia de mudanças constitucionais para estender mandatos na região, como ocorreu na Venezuela, no Equador e na Bolívia. A colunista Mary Anastasia O?Grady, do Wall Street Journal, chamou os golpistas de "patriotas". Em Honduras, a popularidade de Zelaya estava abaixo de 30% nas pesquisas mais recentes.Mas Obama manteve firme sua posição de defesa da democracia na região, sem intervenção nos governos. "Seria um terrível precedente se começássemos a regredir para uma era em que golpes militares eram uma maneira de transição política", disse Obama. Para Christopher Sabatini, diretor do centro de pesquisas Conselho das Américas, Obama foi bem-sucedido ao distanciar os Estados Unidos do passado de intervenções na região. "O governo americano fez um bom trabalho ao condenar fortemente o golpe, ao mesmo tempo que alude às possíveis inconstitucionalidades do governo de Zelaya - que obviamente não são desculpa para expulsá-lo do país", disse Sabatini. A reação da Casa Branca foi muito diferente da do governo George W. Bush diante do golpe de Estado na Venezuela, em 2002. Na ocasião, o governo apoiou o golpe contra Hugo Chávez, mas o presidente venezuelano retomou o poder dois dias depois."Além disso, Obama roubou o show de Chávez", diz Sabatini. "Chávez começou dizendo que a CIA estava patrocinando o golpe, mas com as ações de Obama, perdeu o megafone."Também para mostrar o distanciamento dos militares hondurenhos, de quem são historicamente próximos, os americanos suspenderam toda a cooperação com o Exército de Honduras. Os 600 soldados americanos da base Soto Cano, em Honduras, cancelaram todos os exercícios com os militares hondurenhos. E a Casa Branca aguarda os avanços diplomáticos até segunda-feira, antes de decidir se chamará de volta seu embaixador em Honduras e cortará a ajuda financeira ao país.Mesmo assim, há divergências entre a OEA, apoiada por países como Brasil, Venezuela e Equador, e o governo americano quanto ao modo de lidar com Zelaya. O Departamento de Estado insiste em que Zelaya terá de fazer concessões e abordar a questão da consulta popular que ele queria convocar para tentar se eleger de novo. A OEA acha que esse assunto não está dentro de sua jurisdição. "Seria razoável achar que a viabilidade de um governo democrático (em Honduras) terá de abordar essas questões de alguma maneira", disse um alto funcionário do governo americano.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.