Samuel Corum / GETTY IMAGES NORTH AMERICA / AFP
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'Reação à invasão do Capitólio vai definir o futuro do Partido Republicano'

Especializado em política dos Estados Unidos, Carlos Poggio destaca que republicanos vivem encruzilhada sobre que caminho tomar após ataque de apoiadores do presidente a símbolo da democracia americana

Entrevista com

Carlos Poggio, professor de relações internacionais da FAAP

Paulo Beraldo, O Estado de S.Paulo

07 de janeiro de 2021 | 16h49

A invasão de vândalos apoiadores do presidente Donald Trump no Capitólio é símbolo de tempos 'distópicos' e 'surreais' e ficará marcada para sempre na história dos Estados Unidos, avalia o professor de relações internacionais da FAAP Carlos Poggio, que pesquisou no pós-doutorado a ascensão de Trump à presidência. 

Para ele, o dia 6 de janeiro foi reflexo de um processo gradual de deterioração na democracia americana estimulado por Trump - o 4º presidente a não ser reeleito em 100 anos - e cujos desdobramentos principais serão o impacto para o futuro do Partido Republicano, que já vive uma crise de identidade desde a inesperada vitória trumpista nas primárias. "A questão é: para onde eles vão agora?", questiona. "O que o Congresso e os republicanos farão com Trump?"

Nos últimos anos, os republicanos têm ensaiado uma defesa mais intensa de questões como valores morais, religiosos e menos ligados à sustentabilidade, ao aquecimento global e aos direitos humanos, pautas que se tornaram mais frequentes em vozes democratas.

Agora, afirma Poggio, o partido deve decidir como reagir à invasão e se dependerá no futuro de figuras como Trump ou seus filhos, ou se vai tentar restaurar suas tradições com nomes da política tradicional. 

Qual o peso político do presidente Donald Trump ao deixar a Casa Branca em 2020? Quem é essa figura após o mandato e que influência internacional ele pode ter?

Donald Trump sai dia 20 mas continua liderando um movimento. Não é um líder de um partido, de um país, mas de um movimento político que permanece mesmo após sua saída da Casa Branca. Muito do futuro de Trump depende de suas ações, do que vai fazer para continuar sendo relevante, de quanto as pessoas darão atenção ao que ele faz. Estar fora do poder o enfraquece bastante.

Mas, mesmo sabendo que ele foi derrotado, o presidente de uma grande nação sul-americana disse que era muito próximo ao Trump, dizendo que houve fraude nas eleições. Então, o movimento continua muito forte, em particular com líderes que não têm uma noção estratégica da realidade. 

Qual o futuro possível para o Partido Republicano a partir de agora? 

O Partido Republicano vive uma crise de identidade. Ontem, alguns deputados e senadores disseram que não tinham nada a ver com isso (com a invasão). É preciso ver para onde eles vão agora. Cabe aos republicanos decidirem qual rumo dar ao partido - entender se concordam com os benefícios de curto e médio prazo de ter Trump, que pode ajudar em algumas corridas eleitorais. Mas isso faria o partido abrir mão da identidade partidária, seria o 'partido de Trump'.

Assim como eles também podem chegar à conclusão de que precisam, de alguma forma, diminuir a influência de Trump e entender que se associar tão fortemente a essa figura truculenta, vulgar, pode ser um problema. Os republicanos perderam duas cadeiras do Senado na Geórgia nesta semana, um Estado bastante conservador, em uma derrota que os fez perder o controle do Senado. Os republicanos precisam olhar os resultados dessa eleição, observar setores em que Trump teve apelo, e repensar o que querem para o futuro. 

Falou-se na imprensa americana da possibilidade de evocar a emenda 25, que permite a retirada do presidente. O senhor vê isso como possível?

Se você me perguntasse no dia 5 se eu acreditaria ser possível os americanos invadirem o Capitólio e sentarem na cadeira da Nancy Pelosi, eu diria que é completamente impossível. Parece que estamos vivendo tempos surreais, distópicos. Uma cerimônia de certificação do Joe Biden, que deveria ser uma questão banal, burocrática, virou tudo isso, um fato absolutamente sem precedentes na história da democracia mais antiga do mundo, totalmente fora de propósito. Então, me parece uma possibilidade, sim, que a emenda 25 seja invocada. 

O Mike Pence já parece que não está caindo mais nas graças do Trump. Se ele começar a se manifestar fortemente contra o Pence, poderia ser organizado algum tipo de processo nesse sentido, que depende da maioria do gabinete mandar uma carta ao vice dizendo que não tem mais condições. Tem gente pensando nisso sim, o clima político pesou, pessoas pediram demissão. Acho improvável, mas não impossível. 

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Houve comentários na imprensa americana e nas redes sociais de que a abordagem policial teria sido outra se os manifestantes fossem negros ou latinos. Qual sua avaliação? 

Me pareceu estranha a reação da polícia e não sei dizer qual a razão. Não só foi uma reação muito leve mas pareceu, em alguns momentos, que auxiliaram os manifestantes a irem avançando. Foi uma falha grave de segurança, mas não de inteligência, porque isso não foi surpresa. Sabia-se que algo desse tipo poderia vir a acontecer. Me surpreende muito o fato de não terem se preparado de acordo. Não quero levantar teorias da conspiração, mas isso precisa ser investigado, descobrir o que aconteceu e os responsáveis, punidos. Não apenas os que sentaram na cadeira da Nancy Pelosi, que depredaram o edifício, mas os possíveis responsáveis, se é que houve alguma negligência. 

O Twitter e o Facebook fizeram suas punições mais severas ao presidente Donald Trump, com o bloqueio temporário de sua conta, após mensagens incitando o ódio e espalhando informações falsas. Acredita que essa atitude é a correta por parte das redes sociais?

É uma questão complexa porque muita gente alega que envolve a questão da liberdade de expressão. Se você tem liberdade de expressão completa, o que impede a pessoa de incitar a morte de determinados grupos étnicos? Há limites e esses limites são ainda mais complexos de serem pensados quando falamos de líderes de países e do líder dos EUA. Mas está claro que Trump tem instrumentalizado as redes sociais para deteriorar a democracia americana. É grave quando ele usa redes para propagar a ideia comprovadamente falsa de que houve uma grande fraude conspiratória, de que ele foi ele que ganhou, para mentir descaradamente. Essas mentiras têm impacto social e político, como vimos ontem. Então, me parece que cabe sim às redes tomarem atitudes. Ainda estamos aprendendo a lidar com líderes que agem de forma irresponsável. 

Que atitude o presidente eleito Joe Biden deve tomar para tentar pacificar a nação em seu mandato?

Há pouco que ele possa fazer porque é uma questão estrutural mais ampla. A polarização nos Estados Unidos antecede Trump, que é um produto dela. E ele, uma vez que chegou ao poder, colocou essa polarização em níveis absolutamente intoleráveis. Há muita gente incitada pelo discurso do Trump que já olha para o Joe Biden como um presidente ilegítimo. A sociedade americana como um todo precisa concluir que não há como avançar se continuar com esse processo. Não há mais dois campos políticos, há duas tribos e a lealdade a essas tribos é mais importante para alguns do que a lealdade a determinados valores. 

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