Leo La Valle/Efe
Leo La Valle/Efe

Reações contidas marcaram a Grã-Bretanha após a guerra

Vitória britânica nas Malvinas deu novo impulso ao patriotismo no país

Solly Boussidan, especial para o estadão.com.br,

02 de abril de 2012 | 10h00

SÃO PAULO - Praticamente nenhum historiador questiona o fato de a vitória na Guerra das Malvinas ter elevado a popularidade do governo conservador liderado por Margaret Thatcher, em 1982. A premiê britânica sofria um constante declínio em sua aprovação política e protestos públicos contra suas políticas domésticas eram cada vez mais frequentes, como excepcionalmente mostrado no recente filme Dama de Ferro, pelo qual a atriz Meryl Streep recebeu o Oscar de melhor atriz de 2012.

 

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 A maioria parlamentar obtida pelo Partido Conservador liderado por Thatcher nas eleições de 1983 é, em grande medida, atribuída a uma melhora do otimismo e percepção econômica inglesa associadas à campanha militar no Atlântico Sul.

A vitória britânica nas Malvinas deu novo impulso ao patriotismo no país - abalado desde os anos 1950 por conflitos bélicos desastrados e, principalmente, pela independência sucessiva de diferentes colônias britânicas, dando cabo ao Império de Sua Majestade e restringindo a importância do Reino Unido no cenário internacional.

Apesar de tudo isso, praticamente não houve reações histéricas por parte dos britânicos durante ou após a guerra, como as que ocorreram em Buenos Aires. As Malvinas ficavam muito longe da Grã-Bretanha e a demora na chegada de informações gerava desconexão - e até uma certa apatia - em relação a um confronto tão distante de Londres, em um local remoto e pequeno, que muitos nem sequer conseguiam localizar em mapas comuns.

"Não dá para esquecermos também que os britânicos estavam no auge dos enfrentamentos com o IRA na disputa pela Irlanda do Norte - um conflito muito mais próximo, emocional e com consequências palpáveis para os ingleses do que a disputa por ilhas geladas com mais pinguins do que seres humanos", conta Malcolm Fitzgibbon, um farmacêutico londrino que recentemente mudou para o Brasil com o intuito de investir no ramo hoteleiro do Nordeste.

Filho de irlandeses que imigraram para a Inglaterra nos anos 1960, Malcolm diz que os pais jamais permitiram que os filhos obtivessem outro passaporte que não o britânico "para não levantar questões sobre nossa lealdade ao Reino Unido".

Ao contrário das reações argentinas repudiando tudo o que tivesse conexão com a Grã-Bretanha, Londres praticamente não viu demonstrações contra os argentinos e até hoje o único real motivo para os ingleses torcerem seus narizes a nossos vizinhos latino-americanos é a rivalidade nos campos de futebol.

"O mais engraçado é que até mesmo militares que lutaram na guerra parecem não ter nenhum sentimento antiargentino", relata Malcolm. Segundo ele um de seus antigos chefes em uma farmácia de Londres que lutou nas Malvinas costumava dizer que eles sentiam pena dos recrutas argentinos. "Meu chefe costumava dizer que enquanto os britânicos serviam de forma voluntária, os argentinos eram em sua grande maioria recrutas forçados a entrar no exército e lutar em nome de uma ditadura militar que os perseguia em seu próprio país", conta.

Nem mesmo a imprensa britânica, tão famosa pela quantidade prolífica de tabloides, pode ser acusada de parcialidade - a guerra foi coberta de forma neutra por grande parte dos veículos de informação do país. A grande exceção foi o piegas "The Sun", que até hoje é conhecido por manchetes contra os militares argentinos como "Stick It Up Your Junta!" (algo como "Enfie na sua Junta!) e "Gotcha!" ("Te Pegamos!", em alusão à destruição do navio argentino Belgrano).

 

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